Tio Juan e o aniversário deste blog

Este blog começou há um ano, de uma forma despretensiosa e quase clandestina. Para ser preciso: no dia 13 de dezembro de 2007. A iniciativa foi um tanto doméstica, não me animei no princípio a comunicar nem aos amigos próximos. Sequer sabia se seria viável, devido aos meus compromissos do dia a dia. Tive a idéia ao visitar o blog de um amigo peruano que admiro há anos.

foto-gargurevich1Além de jornalista com larga experiência, Juan Gargurevich (foto ao lado) é um respeitado professor de comunicação e um dos principais historiadores do jornalismo em seu país. Ficamos amigos depois de nos conhecermos numa viagem internacional – para um Congresso de Jornalistas. Nos reencontramos depois, meia dúzia de vezes em outros tantos países. Além disso, ele costuma viajar ao Brasil (para seminários) e eu estive umas duas vezes em Lima, na sua casa.

Juan publicou umas duas dezenas de livros (saiba mais AQUI) – o último deles em 2005, sobre os passos iniciais do escritor Mario Vargas Llosa, aos 15 anos de idade (1952) na carreira de jornalista (veja a capa abaixo, à direita), no jornal La Cronica, onde começou a nascer o livro Conversación en la Catedral, muito conhecido hoje em toda a América Latina.

Como nascem os blogs

gargurevich_vargasllosaHá mais de dois anos Juan Gargurevich passou a fazer seu blog por insistência de seus alunos da Universidade – a PUC do Peru. Chamava-se inicialmente “Blog do Tio Juan”, mas foi  rebatizado há alguns meses como “Histórias de Periodistas y de Periodismos”. Está hospedado no mesmo wordpress onde tenho o meu, exatamente porque foi numa visita ao de Juan que tive a idéia de seguir o exemplo.

A vantagem de Juan como blogueiro (talvez ele odeie a palavra) é conhecer muito bem o jornalismo  os jornalistas e a história da mídia. E saber contar suas histórias como ninguém. Desconfio que os alunos resolveram pressioná-lo a fazer o blog precisamente por acharem injusto que só eles tivessem o privilégio de ouvir aquelas histórias –  às vezes saborosas, às vezes alegres, às vezes dramáticas – do velho jornalista, professor e historiador (não deixe de conhecê-las AQUI).

Com isso, os estudantes acabaram por indiretamente me convencerem também a fazer alguma coisa para tirar partido desse recurso oferecido pela internet. Só que, no meu caso, por várias razões, o produto saiu bem diferente daquele oferecido originalmente pelo tio Juan. Também gosto de histórias de jornalistas e de jornalismo, já vivi muitos episódios e já ouvi muitos relatos, mas acabei atraído para outro caminho.

A surpresa no gráfico das visitas

gargurevich-02Se me estendo tanto sobre o trabalho de Juan Gargurevich  (veja ao lado outro de seus livros) é porque há muito eu esperava uma oportunidade para revelar como afinal criei este blog, inspirado  na experiência dele, e como fui surpreendido pelo extraordinário interesse dos leitores (ou internautas). O primeiro post foi colocado no ar a 13 de dezembro mas permaneceu oculto e solitário por dois meses e meio, até ser refeito a duras penas (mudei até o tema), deixando ao final, entre aspas, a anotação: “atualizado a 27/2/2008″.

No desdobramento, notei o grande interesse das pessoas (e de outros blogs, que passaram a reproduzir os posts). Percebi que tinha uma responsabilidade para com o leitor. Ao mesmo tempo, isso passou a afetar minha vida pessoal. Fiz uma mudança, fiquei sem internet por mais de um mês em razão disso, e o número de visitas, obviamente, sofreu grande queda. Mas os leitores voltaram depois e o número de visitas passou a subir de novo.

Ante o interesse extraordinário pela eleição presidencial dos EUA e uma recomendação extremamente simpática do Blog do Nassif (conheça-o AQUI), o gráfico do wordpress bateu um recorde a 21 de setembro, com um pico de 1.266 visitas. Ainda que tenha havido depois um movimento de acomodação, a média regular permaneceu em patamar mais elevado. Isso permitiu registrar quase 8.500 visitas em outubro e mais de 7.500 em novembro.

Dois pedidos de desculpas

1Em dezembro, afinal, veio novo golpe, com mais um imprevisto. Eu previa que no mês das festas de fim de ano dificilmente seria possível manter o ritmo de outubro e novembro, mas não esperava ser golpeado de novo pela informática. Problemas sérios de hardware (queima de fonte e queima da placa lógica), em seguida à suspensão da Tribuna da Imprensa no início do mês perturbaram toda a rotina estabelecida antes para o blog.

Os leitores, claro, responderam como era natural. O número de visitas caiu.  Mas, surpreendentemente, eles parecem ter percebido que havia alguma anormalidade. Pois até hoje, dia 29, quase 6 mil leitores já visitaram este blog em dezembro. Daí o meu esforço para trazer esta explicação e fazer dois pedidos de desculpas. Um para a ausência de atualizações em julho-agosto, pela falta de acesso à internet;  outra pelas falhas na segunda quinzena de dezembro.

Os problemas de hardware continuam. Este blog é feito por apenas uma pessoa, mesmo contando com a colaboração preciosa e indispensável dos leitores, com  comentários sempre oportunos. Mas continuará o esforço para um retorno rápido ao ritmo ideal de atualizações, dado o interesse do leitor. De 27 de fevereiro a 29 de dezembro, o número de visitas aproxima-se de 40 mil. Neste momento, 36.221, das quais 28.247 apenas em setembro, outubro, novembro e dezembro – média mensal superior a 7 mil.

Published in: on dezembro 29, 2008 at 9:57 pm  Comments (15)  

Os torturadores de Abu Ghrabi, Guantánamo, etc.

rumsfeld_ford_cheney-1975

Esta é uma foto histórica: o presidente Gerald Ford, que ao ser empossado em seguida à renúncia de Richard Nixon (forçada pelo escândalo de Watergate) tinha declarado o fim do “longo pesadelo nacional”, chamou dois ex-colegas da Câmara, Donald H. Rumsfeld e Dick Cheney, para o governo. Os dois seguiam filosofia  popular em Washington: “eu coço suas costas, você coça as minhas”. Cheney era estagiário na Câmara ao conhecer Rumsfeld, já  deputado. Depois os dois foram deputados juntos.

Também estiveram juntos no governo Nixon (quando Rumsfeld, chamado, levou Cheney). Depois, cada um foi chefe de gabinete da Casa Branca (com Ford, um substituindo o outro) e secretário da Defesa (Rumsfeld nos governos Ford e Bush II, Cheney com Bush I). Sempre um coçando as costas do outro.  Em 2001, quando Cheney virou vice, deu o Pentágono ao amigo. E então o terrorismo do 11/9, além de ter criado o momento de glória para Osama Bin Laden, permitiu à mídia nos anos seguintes fabricar Rumsfeld como celebridade, elevando-a ao status de Madonna – ou, quem sabe, O. J. Simpson.

saddam_rumsfeld1Como milhões de pessoas, acompanhei a façanha pela TV. Vi como Rumsfeld passou a ser tratado como os astros de rock e do futebol. Não o vi cantar ou requebrar como Elvis Presley, mas isso em nada impediu seu enorme sucesso junto ao pessoal  da mídia. Tornou-se atração diária da tarde nas redes all news, em confraternização promíscua com jornalistas de todos os veículos (inclusive os dos jornais mais influentes) na sala de imprensa do Pentágono. No espetáculo deprimente, jornalistas gargalhavam com ele – para vergonha da profissão.

Eu me lembrei disso tudo no início do ano passado, quando Rumsfeld abandonou o governo tão rejeitado como seu ex-adjunto Paul Wolfowitz, botado para fora até no Banco Mundial. E ao contrário da mídia desmemoriada dos EUA, que não ousava perguntar a ele sobre o aperto de mão com Saddam Hussein na foto acima (em Bagdá, 1983,  depois de ter o Iraque usado armas químicas contra os iranianos), lembrei de novo agora, quando Rumsfeld está outra vez em foco – como o principal entre os acusados de crimes como abusos, tortura e morte em Guantánamo e demais prisões secretas dos EUA pelo mundo.

Quem pagará por estes crimes?

As acusações criminais, em tom vigoroso, estão no relatório bipartidário elaborado pela comissão dos Serviços Armados do Senado americano e divulgado há uma semana (saiba mais AQUI). Junto com Rumsfeld podem ser acusados ainda seu assessor jurídico William Haynes; o ex-assessor do presidente Bush na Casa Branca e ex-Procurador Geral Alberto Gonzales; e o ex-chefe de gabinete do vice-presidente  Dick Cheney, David Addington.

Hoje, quinta-feira, o New York Times acordou, com alguns dias de atraso, para a relevância do relatório do Senado. Lembrou como a ação desses personagens conspícuos “levaram diretamente” ao que aconteceu em Abu Ghrabi, no Afeganistão, na baía cubana de Guantánamo (em território sob indecente ocupação militar dos EUA há mais de um século) e em outras prisões secretas da CIA espalhadas pelo mundo, muitas das quais continuam a ser um mistério.

Claro que todo mundo sabe que os responsáveis maiores são o próprio presidente George W. Bush e seu vice Cheney. Antes de violarem a Carta da ONU para lançcar a agressão militar contra o Iraque, a dupla também já tinha encomendado à CIA as provas fraudulentas sobre inexistentes armas de destruição em massa (ADM). Rumsfeld e o resto da turma foram os que, para atendê-los, atolaram a mão na lama – fizeram o serviço sujo.

O relatório agora revelado foi distribuído tanto pelo presidente da comissão, o senador democrata Carl Levin, como pelo republicano de maior hierarquia na mesma comissão, o ex-candidato presidencial John McCain. Resulta do estudo mais profundo feito até hoje no Congresso sobre as origens dos abusos sofridos por prisioneiros sob custódia de autoridades dos EUA.

rumsfeldeconomist1Aprovado pela alta hierarquia

Revistas estrangeiras – como a conservadora The Economist, da Grã Bretanha, já exigiam a renúncia de Rumsfeld em 2004 (veja a capa ao lado). Agora o documento rejeita explicitamente a alegação anterior do governo Bush de que os métodos de interrogatório usados ajudaram a evitar novos ataques de terroristas aos EUA. Rejeitou ainda outras alegações anteriores de Rumsfeld, entre elas a versão sem qualquer base de que as políticas do Pentágono nada tiveram a ver com os abusos praticados contra os presos de Abu Ghrabi, Guantánamo e em outros casos de torturas.

As autoridades americanas sustentavam, desde o escândalo de Abu Ghrabi, que tudo fora provocado por uns poucos soldados fora de controle, agindo por conta própria. O relatório refuta a desculpa esfarrapada. Deixa claro que aqueles métodos de interrogatório foram aprovados pelo próprio secretário Rumsfeld e outras altas autoridades do Departamento da Defesa, a pretexto de que “pressões físicas e degradação eram apropriadas”.

Como destacou o editorial do Times hoje (leia a íntegra AQUI), aquelas autoridades “encarregadas de defender a Constituição e a postura da América no mundo, introduziram metodicamente práticas de interrogatório baseadas em torturas ilegais a que agentes chineses recorriam na guerra da Coréia”. Até o governo Bush, a única utilização de tal conhecimento nos EUA tinha sido para treinar seus soldados em resistência caso fossem capturados por “inimigos sem princípios”.

A comissão constatou que à época do escândalo de Abu Ghraib, Rumsfeld tinha revogado uma aprovação que expedira para o uso das técnicas mais cruéis. Autorizara tais métodos em dezembro de 2002, voltando atrás depois. Segundo o relatório, os excessos, até aquelas posições extremas e nudez forçada, já tinham sido disseminados por todo o sistema de detenção militar, “prejudicando nossa capacidade de coletar informações confiáveis de inteligência, capazes de salvar vidas. Além de fortalecer a mão do inimigo, comprometiam nossa autoridade moral”.

O zelo e a dedicação aos chefes

A maioria dos americanos, segundo o Times, sabia há muito tempo que os horrores de Abu Ghrabi não eram obra de uns poucos sociopatas de hierarquia inferior. Todos, à exceção dos mais obcecados na dedicação ao presidente Bush, reconheciam haver uma cadeia de decisões inescrupulosas que levaram aos abusos, às torturas e às morte em prisões dirigidas pelos serviços militares e de inteligência dos EUA.

O excesso de zelo de gente que servia a Bush (como Gonzales, seu consultor no governo do Texas e na Casa Branca, depois promovido a Procurador Geral e forçado a renunciar) e a Cheney (como Addington, que fazia pareceres trabalhosos para dar fundamento jurídico às obsessões malignas do vice) produzia documentos jurídicamente e moralmente reprováveis, na ânsia de justificar as ações desejadas pelos chefes.

Foi o caso da Ordem Presidencial (equivalente a decreto) estabelecendo que as convenções de Genebra não se aplicavam a presos da chamada “guerra ao terror” – a primeira vez que um país democrático reinterpretou unilateralmente as convenções. Coisas assim golpearam a imagem dos EUA no mundo. As imagens de Guantánamo e Abu Ghrabi, segundo um ex-advogado da Marinha, estão hoje entre as causas maiores de mortes de militares do país.

O Times acha compreensível a ansiedade dos americanos para virar a página e esquecer essa questão sombria. “Mas seria irresponsável para o país se o novo governo (de Barack Obama) ignorasse o que ocorreu – e pode ainda estar acontecendo nas prisões secretas da CIA”, advertiu o editorial, que ainda defendeu a nomeação de um promotor especial para conduzir a acusação às altas autoridades do Pentágono e demais envolvidos no planejamento dos abusos.  (Abaixo, o agradecimento final de Bush aos patrióticos serviços prestados por Rumsfeld)

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Published in: on dezembro 18, 2008 at 9:09 pm  Comments (2)  

A secretária de Estado e a América Latina

hillarypaEla conhece melhor a América Latina do que Barack Obama (que diabo, ele nunca foi primeira dama!). Esteve na região, inclusive no Brasil, muitas vezes. E o que nos promete a secretária de Estado indicada, Hillary Clinton? Há pouco mais de um ano, ainda  líder absoluta (apoiada pela cúpula do Partido Democrata, superdelegados e milhões de dólares em contribuições de campanha) entre os candidatos potenciais democratas, ela só dedicou um único parágrafo à AL em sua proposta de política externa.

O texto ocupou 18 páginas do número de novembro-dezembro da principal revista de política externa do país, Foreign Affairs, sob o título geral “Security and Opportunity for the Twenty-first Century” (leia a íntegra AQUI). Pareceu desapontador. Na mesma época o principal analista, Tom Barry, do Programa de Política das Américas no Centro de Política Internacional (CIP), sediado em Washington e presidido pelo ex-embaixador Robert White, divulgou crítica dura e bem fundamentada na internet à proposta de Hillary. 

De acordo com aquela análise de Barry, a ex-primeira dama demonstrava, em primeiro lugar, falta de respeito pela América Latina. Ele achou insólito Hillary ter, ao mesmo tempo, acertado no diagnóstico – ao lamentar que o governo Bush “tenha malbaratado o respeito, a confiança e o crédito que teve entre nossos mais próximos aliados e amigos”. Pois nos últimos anos, disse Barry, as autoridades dos EUA “concentraram-se mais no medo de novos desdobramentos políticos na região do que nos meios de melhorar as oportunidades e a segurança humana”.

Um retorno ao intervencionismo

Alegava o artigo de Hillary que no governo Bush “vimos o retrocesso de ganhos democráticos e da abertura econômica em partes da América Latina”. Ao invés de aplaudir a tendência de número maior de governos eleitos, superando obstáculos estruturais que têm marginalizado populações pobres e indígenas, observou Barry, “ela evoca o quadro de uma região ameaçada por forças retrógradas.

Assim, “ao culpar o governo Bush por sua negligência, Hillary dá a entender que uma política americana mais engajada teria obstruído a ascensão de governos democráticos de centro-esquerda, como os da Venezuela, da Bolívia e do Equador”. Ou seja, ela reclama a volta a um “engajamento vigoroso”, a pretexto de ser a região crítica demais, na qual o melhor é os EUA se intrometerem.

De que tipo de “engajamento vigoroso” Hillary está falando? – perguntou Barry. “Formas passadas de intromissão”, conforme lembrou ele, “incluiram intervenção em eleições nacionais, apoio financeiro e militar a movimentos ilegais de oposição, campanhas de propaganda para disseminar mensagens favoráveis a forças pro-EUA e difamação de outras”.

Qualquer “retorno” a política desse tipo, como denunciou com irritação o analista do CIP, na certa vai ser encarada desfavoravelmente na América Latina. “Os poucos exemplos positivos recentes de engajamentos americanos a pretexto de proteger interesses ‘críticos’ dos EUA, geopolíticos e econômicos, revelaram-se com frequência sinônimos de ações intervencionistas” (leia a análise na íntegra AQUI).

“Bush I, Clinton I e Bush II”

Hillary incluiu entre suas prioridades o apoio às “maiores democracias da região, Brasil e México”; o aprofundamento “da cooperação econômica e estratégica com Argentina e Chile”; e o combate “às ameaças interligadas do tráfico de drogas, crime e insurgência”, na Colômbia, na América Central e no Caribe”. O que equivale à mesma retórica abraçada pelo governo Bush.

Barry percebe, como qualquer pessoa com um mínimo de bom senso, que após estabelecer essa agenda para o envolvimento dos EUA nas questões de segurança, Hillary conclui com esta frase: “Precisamos trabalhar com nossos aliados para fornecer programas de desenvolvimento sustentável que promovam oportunidade econômica e reduzam a desigualdade entre os cidadãos da América Latina”.

O analista resume, enfim, que “a política latino-americana de Hillary Clinton provavelmente será muito semelhante às dos governos de Bush I, Clinton I e Bush II, que vieram antes” (ele partia do pressuposto, obviamente, de que ela esperava um Clinton II, o dela). A única diferença notável, para ele, seria que o governo dela poderia “tomar medidas mais fortes para conter governos que ousem determinar seu rumo próprio no campo comercial, de desenvolvimento e de política externa”.

Ela sequer mencionara a necessidade de reformular a desastrosa política em relação a Cuba. Mas em outra oportunidade já tinha prometido (de olho no lobby cubano de Miami, claro) manter o embargo “até haver uma transição democrática”. Também pretendia manter a fracassada estratégia das guerras à droga, erradicação de plantações de coca e combate à contrainsurgência, a pretexto de reduzir o fluxo de narcóticos para o bilionário mercado americano.

Respeito é bom e a gente gosta

Embora o Establishment político de Washington fique limitado a poucas opções sobre América Latina, os países da região, em especial na América do Sul, vivem momento promissor, com novas políticas. Mesmo sem endossá-las Hillary poderia no mínimo, inspirando-se no exemplo de Franklin Roosevelt, declarar seu respeito pelo direito dos latino-americanos de decidir o próprio rumo.

Após três décadas de intervencionismo imperial e ocupações, lembrou Barry, Roosevelt optou pela política da Boa Vizinhança, com “respeito mútuo” e “auto-determinação”. Nem sempre seguiu tais princípios, mas pôde construir o respeito pelos EUA e uma cultura de cooperação nas Américas. Hillary fala em recuperar o respeito, mas através das “dimensões do poderio americano”.

Ela deixava de reconhecer que as relações EUA-América Latina sofreram muito mais pela arrogância americana e seus “engajamentos” mal avaliados e mal conduzidos do que pela negligência ou inação face a ameaças imaginárias aos interesses americanos. O respeito mútuo pode ser restabelecido, mas os EUA terão de mostrar mais respeito pelos vizinhos do sul – e dizer a eles que respeitarão o que eles decidirem.

Felizmente a própria Hillary reconheceu, já nas primeiras manifestações como secretária indicada, que conduziria uma política externa conforme os rumos determinados pelo presidente. E o presidente-eleito Barack Obama escolheu Franklin Roosevelt, junto com Abraham Lincoln, como uma espécie de modelo, tanto para a política interna, centrada num esforço semelhante ao do New Deal, como para a externa, na qual ele apostou na Boa Vizinhança e no fim do intervencionismo. Por enquanto pode ser um alívio para o continente – mas ainda é cedo para dizer que seja uma garantia.

Published in: on dezembro 13, 2008 at 1:23 pm  Comments (4)  

Juan Carlos, Aznar – e Mauro Santayana

bush_jcarlosEm geral tenho preferido evitar confrontos com as posições dos leitores, apesar de ter o cuidado de respeitar as opiniões divergentes. Mas retomo a questão sobre José Maria Aznar em razão de duas manifestações, em comentários, que justificam mais algumas observações. Uma delas, correta, educada e inteligente. A outra, apenas um conjunto de insultos e idéias mal formuladas.

Recebo com humildade e respeito a divergência manifestada por Pablo (veja os dois comentários do post anterior, “Por qué no te callas, José Maria Aznar?”), mesmo mantendo minha opinião. Compreendo as razões dele. Acredita que o rei Juan Carlos (na foto acima, com Bush) ajudou a consolidar a democracia na tentativa de golpe de fevereiro de 1981. E assinala que estava defendendo menos Asnar do que a imagem da Espanha.

Como Pablo expõe de forma articulada e inteligente o que acha, deixando claro que é sincero e tem argumentos racionais, vou transcrever depois deste texto um artigo publicado na época do episódio pelo jornalista Mauro Santayana, que além de ser um amigo de meio século, conhece muito bem a Espanha – e acompanhou ali, como correspondente internacional, todo o processo de democratização da Espanha, em seguida à morte do ditador Franco.

Os fatos e os xingamentos

Pode mudar ou não a posição de Pablo – que tem suas próprias idéias e sabe muito bem defendê-las. Estou certo de que nesse processo, na troca civilizada de opiniões e pontos de vista, ambos sairemos ganhando. Em relação ao outro comentário, não me pareceu que seu autor, Mozart Guariglia, estivesse sequer interessado em ler uma resposta. De qualquer forma, aqui vai esta.

Ele atribuiu a mim a “mania de criticar acidamente pessoas notoriamente decentes e exaltar nulidades”, o que considera comum “nessa nossa imprensa chapa branca no que se refere a comunas e cretinos de maneira geral”. “Sentam o pau no rei e se omitem diante de uma coisa abominável como esse boquirroto Chávez”. Na verdade, toda a mídia “sentou o pau” em Chávez, não no rei. Quanto a mim, não me considero chapa branca, cretino ou comuna, não exaltei Chávez e nem xinguei Aznar – ou o rei. Fiz avaliações sobre fatos.

Poderia penitenciar-me, no máximo, pela expressão “reizinho de fancaria”, que se apoiava em outra afirmação (factual, não xingamento), “monarca por obra e graça do ditador Francisco Franco”. Mas submeto à apreciação dos leitores – tanto os dois citados como os demais que se interessam pelo tema – o excelente artigo de Santayana, o mais consistente que li no Brasil sobre o episódio de novembro de 2007.

MAURO SANTAYANA: “A ARROGÂNCIA COLONIALISTA”

escudo_realO presidente Hugo Chávez é descuidado e franco no que fala. Usa, em sua retórica antiimperialista, metáforas quase divertidas, como chamar Bush de diabo. Mas não exagerou ao qualificar o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar de fascista. Aznar, produto típico da Opus Dei, que se reorganiza com novo alento na Espanha, sempre tratou a América Latina com desdém. Em 2002, em Madri, atreveu-se a dar ordens ao presidente Eduardo Duhalde, da Argentina, para que aceitasse e cumprisse as exigências do FMI. Reincidiu na grosseria, ao telefonar a Buenos Aires, logo depois, como um dono de fazenda telefona para seu capataz, a fim de determinar-lhe a assinatura imediata do acordo com o órgão.

Conforme disse o próprio ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, Aznar deu ordens ao embaixador da Espanha em Caracas para que apoiasse o golpe contra Chávez em 2002. Com o presidente eleito preso pelos golpistas, o embaixador foi o primeiro a cumprimentar o empresário Pedro Carmona, que, também com o entusiasmado aplauso do representante dos Estados Unidos, tomava posse do governo, para ser desalojado do Palácio de Miraflores horas depois.

Não se pode pedir a Chávez que trate bem o ex-primeiro ministro espanhol, embora talvez lhe tivesse sido melhor ignorá-lo no encontro de Santiago. Mas, como comentou, na edição de ontem de El País, o jornalista Peru Egurdide, há um crescente mal-estar na América Latina com a presença econômica espanhola, identificada como “segunda conquista”. A Espanha opera hoje serviços como os bancários, de água, energia, telefonia e estradas, que não satisfazem os usuários. Ainda na noite de sexta-feira, em reunião fechada, Lula e Bachelet trataram do assunto com Zapatero, de forma veemente – longe dos jornalistas.

Mas se Chávez, mestiço venezuelano, homem do povo, fugiu à linguagem diplomática, o rei Juan Carlos foi imperial e grosseiro, ao dizer-lhe que se calasse. O rei, criado por Franco, tem deixado a majestade de lado para intervir cada vez mais na política espanhola – conforme o El País critica em seu editorial de ontem. Em razão disso, as reivindicações federalistas dos povos espanhóis (sobretudo dos catalães e dos bascos) se exacerbam e indicam uma tendência para a forma republicana de governo. Pequenos episódios revelam o conflito latente entre os espanhóis e seu rei. Já em 1981, quando do frustrado golpe contra o Parlamento Espanhol, o comportamento de sua majestade deixou dúvidas. Ele levou algumas horas antes de se definir pela legalidade democrática. Para muitos, o golpe chefiado por Millan del Bosch pretendia que todos os poderes fossem conferidos a Juan Carlos, em um franquismo coroado.

Os dirigentes latino-americanos tentarão, diplomaticamente, amenizar a repercussão do estrago, mas o “cala a boca” de Juan Carlos doeu em todos os homens honrados do continente. O rei atuou com intolerável arrogância, como se fossem os tempos de Carlos V ou Filipe II. A linguagem de Zapatero foi de outra natureza: pediu a Chávez que moderasse a linguagem. Como súdito em um regime monárquico, não pôde exigir de Juan Carlos o mesmo comportamento – o que seria lógico no incidente.

Durante os últimos anos de Franco, a oposição republicana espanhola se referia ao príncipe com certo desdém, considerando-o pouco inteligente. Na realidade, ele nada tinha de bobo, mas, sim, de astuto, vencendo outros pretendentes ao trono e assumindo a chefia do Estado. Agora, no entanto, merece que a América Latina lhe devolva, e com razão, a ofensa: é melhor que se cale. (Transcrito do Jornal do Brasil de 12/11/2007)

(E abaixo os leitores podem rever, pelo You Tube, as imagens do episódio na Cúpula Iberoamericana do Chile. No primeiro, no qual não se ouve o que Hugo Chávez fala, pode ser notado que a intervenção do rei atropelou ostensivamente a fala de Zapatero. O segundo vídeo é uma montagem apenas divertida sobre o caso)


Published in: on dezembro 12, 2008 at 3:15 pm  Comments (4)  

Por qué no te callas, José María Aznar?

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Nossa mídia golpista adorou esta XVII Cúpula Iberoamericana de 2007, no Chile (foto acima). Mas hoje sinto falta nos jornalões brasileiros de notícias sobre a decisão tomada na Espanha – no Executivo, Legislativo e Judiciário – de investigar a extensão da cumplicidade do governo de José Maria Aznar com o de George W. Bush, agora nos extertores e conformado em ir para a lata de lixo da história.

Para quem já esqueceu, vale lembrar aquela figura que governou a Espanha. Quando Aznar foi chamado de “fascista” na cúpula, pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, nossa mídia golpista, em coro, festejou a frase do reizinho de fancaria, Juan Carlos I – feito monarca por obra e graça do ditador Francisco Franco. “Por qué no que callas?” – disse ele para deter o repúdio público de Chávez ao melancólico Aznar.

Na ocasião, o presidente do governo espanhol já era o socialista (do PSOE) José Luis Rodríguez Zapatero – que pediu a Chávez para respeitar seu antecessor, por também ter sido, antes, eleito pelos espanhois (o fato de Hitler ter sido eleito pelos alemães não o tornara menos nazista). A ambiguidade pode ter irritado Chávez. Mas hoje há mais dados para entender a situação, pois Governo, Congresso e  Justiça investigam Aznar (saiba mais AQUI).

Mais sobre o pomposo fascista

A façanha maior de Aznar foi o pacto secreto com Bush e a destruição de papéis para ocultá-lo. “Uma das maiores vergonhas de nosso tempo”, disse El País. À frente do governo, Aznar (do Partido Popular, de direita) arrastara a Espanha a tal aliança já em 2002, antes mesmo da guerra no Iraque. E autorizara o uso do território espanhol para os vôos secretos da CIA entre Afeganistão e Guantánamo, para transporte e tortura de presos.

Posteriormente, ante a falta de apoio (no Conselho de Segurança da ONU) para a guerra de Bush no Iraque, a Espanha de Aznar veio em seu socorro. E trouxe o então premier de Portugal, José Manuel Durão Barroso – que entrou meio de gaiato, em parte para ser o anfitrião da reunião do grupo (Bush, Blair e os dois bobocas ibéricos) no arquipélago de Açores, pertencente a Portugal.

No momento em que o mundo recorda os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem é mais do que oportuno voltar a esse papel vergonhoso de Espanha e Portugal na trama. A península ibérica, pela sua localização, era muito conveniente para acobertar os vôos secretos, entre prisões também secretas, usadas por Bush em diferentes países submissos, na obsessão de esconder a iniquidade.

A história desse capítulo sinistro das diplomacias espanhola e portuguesa continuava sob a proteção do sigilo até há pouco. Só começou a ser devassada depois de sucessivas revelações do El País em Madri. E na medida em que a verdade aparece nas diversas investigações em andamento, nem mesmo os socialistas de Zapatero deixam de sair chamuscados.

Aqueles cúmplices da vergonha

A suspeita é de que o governo de Zapatero não só conhece toda a cumplicidade de Asnar (em nome da Espanha) com os crimes de guerra de Bush, como somou-se à prática. Segundo assinalou El País, também o atual presidente de governo tem explicações a dar ao Congresso e à Justiça. E nesse ponto, o partido de Aznar está botando lenha na fogueira. Quer espalhar a lama, na ânsia de assim diminuir a própria culpa.

Com os dois lados juntos na lama, compreende-se melhor a ambiguidade de Zapatero ao ser atropelado na cúpula pelo reizinho herdeiro de Franco. Ele nega ter sabido do pacto, mas corre o risco de não sair bem nas investigações. Aznar, segundo já é sabido, chegou ao requinte – no final do governo – de contratar empresa especializada em destruição de documentos para dar fim à papelada que o comprometia junto com o PP.

No último dia 2, veemente editorial do El País condenou a cumplicidade do governo Aznar com Bush. Sob o título “Cúmplices da vergonha” (leia a íntegra AQUI), o jornal lamentou que nenhum alto dirigente do PP tenha sequer manifestado reservas sobre “o traslado ilegal de pessoas para Guantánamo”. Na edição online do jornal, dezenas de leitores aplaudiram o editorial com igual indignação. Ao mesmo tempo, também é constrangedor para o líder socialista.

Aznar comprometeria a Espanha ainda mais nos meses seguintes, ao apoiar a aventura militar de Bush no Iraque – condenada esmagadoramente pelos espanhois. Na reunião dos Açores, às vésperas da guerra, foi formalizado ao mesmo tempo o apoio à agressão bélica bushista – cujos termos só se tornariam conhecidos mais de três anos depois (em setembro de 2007), também graças a El País (saiba mais sobre o memorando AQUI).

O que mais Aznar tenta esconder?
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O pretensioso Aznar agia às escondidas dos que o elegeram em 2000. Subserviente, tinha declarado ao seu padrinho George Bush: “Estamos mudando a política espanhola dos últimos 200 anos” (veja a manchete na capa de El País abaixo, à direita). Mas a 11 de março de 2004, às vésperas da eleição na qual considerava certa sua reeleição, 10 explosões terroristas que mataram 191 pessoas alertaram os espanhóis para os efeitos do que Aznar andava fazendo secretamente.

Certo de que, se admitisse ter sido o atentado perpetrado por grupos islâmicos (devido ao papel cúmplice da Espanha na guerra de Bush no Iraque), perderia a eleição, Aznar e seu governo mentiram ao país até o último momento. Atribuiram a autoria aos separatistas bascos da ETA. E após sucessivos protestos públicos exigindo a verdade, os eleitores deram a vitória aos socialistas de Zapatero.

elpais_portadaNos últimos anos, fora do governo, Aznar foi ainda mais para a direita. Passou até a negar, como a direita bushista, a ameaça do aquecimento da terra. E tem sido largamente recompensado. O bushismo garantiu-lhe empregos na Universidade de Georgetown em Washington, no Conselho Diretor do império Murdoch de mídia, no conselho do Centaurus Capital (um hedge fund) e mais mordomias.

Na investigação do juiz Ismael Moreno sobre os vôos secretos da CIA para torturar já foram arrolados oito cidadãos americanos – certamente espiões – que deram telefonemas de passagem pela Espanha (saiba os nomes AQUI). Hospedavam-se no luxuoso Royal Plaza de Ibiza, talvez descansando das penosas tarefas de espancar gente para arrancar informações. Bush vai entregá-los? Duvido. O risco é de serem os oito condecorados como heróis.

(Abaixo, a foto da infame reunião dos Açores, três dias antes da agressão que violou a carta da ONU no Iraque: entre o “anfitrião” Durão Barroso e o bagrinho bushista Aznar, a dupla dos guerreiros da cruzada do petróleo, Blair & Bush)

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Published in: on dezembro 11, 2008 at 10:21 pm  Comments (3)  

Os oito anos de estragos de Bush e Cheney

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A minuciosa avaliação dos estragos causados por oito anos do governo Bush-Cheney foi feita pelo projeto Broken Government (Governo Fraturado) do Center for Public Integrity (CPI), Centro pela Integridade Pública. E a conclusão, em relatório digital, já está disponível na internet. Expôe cada uma das mais de 130 falhas sistemáticas, apontando suas causas, efeitos e implicações (confira AQUI).

O CPI é uma organização sem fins lucrativos. Dedica-se a jornalismo investigativo de interesse público. O projeto dele consiste de uma avaliação ampla das falhas do Poder Executivo ao longo dos dois mandatos de Bush-Cheney, de janeiro de 2001 a janeiro de 2009. Todo o relatório pode ser visto no web site do CPI. O desenho de uma Casa Branca em processo de desmoronamento (veja acima) reflete as conclusões do trabalho.

O que o CPI fez foi a radiografia de um governo disfuncional, o que se pode ver ponto por ponto, num processo interativo. No web site você clica em qualquer um dos cacos da Casa Branca espalhados pelo chão para ler balanço atualizado sobre o respectivo ítem – parte do legado desastroso de Bush aos americanos. A leitura pode ser por categoria (saúde, educação, meio-ambiente, segurança, justiça, energia, finanças, militares, etc), por agência federal e por uma lista completa.

thebuyingpresidentMesmo sendo o quadro desastroso, a seriedade da investigação é inegável. Fundado por Charles Lewis (saiba mais sobre ele AQUI), que publica a cada eleição, desde 1996, um novo livro da série The Buying of the President (veja à esquerda a capa do de 2004), mostrando quem está bancando (ou “comprando”) os candidatos, o CPI tem hoje como diretor executivo Bill Buzenberg, que foi jornalista durante mais de 35 anos. Entre os 17 integrantes do Conselho Diretor estão ainda Hodding Carter III, Charles Eisendrath e outras personalidades igualmente respeitadas tanto na área jornalística como na acadêmica.

Published in: on dezembro 10, 2008 at 5:59 pm  Deixe um comentário  

Cheney e os crimes de guerra do governo Bush

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O pouco dotado presidente George W. Bush e seu vice todo poderoso, Dick Cheney, preparam-se para festejar o Natal e, a 20 de janeiro, tomar outro rumo. O governo deles desceu a um nível de aprovação mais baixo do que qualquer outro nos 232 anos de história do país. Avaliados e julgados com rigor dentro e fora de casa, os dois saem quase escorraçados. Passam o poder depois de sofrer repúdio esmagador na eleição.

Pior ainda: dificilmente Bush e Cheney conseguirão descansar do pesadelo que legaram ao país. Continuarão a ser execrados em relatos contundentes como o do livro The Dark Side – The Inside Story of How the War on Terror Turned into a War on American Ideals, lançado em julho pela jornalista Jane Mayer. Ela expôs o lado mais sinistro e repulsivo da dupla: a guerra aos próprios ideais americanos.

The Dark Side devassou a trama interna dentro do governo que, a pretexto de responder ao ataque de 11 de setembro de 2001, recorreu a operações abusivas de segurança nacional, frequentemente ilegais e cujo extremismo é comparável ao dos próprios terroristas que atacaram o World Trade Center e o Pentágono – em especial, as prisões secretas pelo mundo e o uso explícito da tortura, violando as leis do país e tratados internacionais.

À frente de tarefas macabras

Antes desse livro, o talento e a capacidade de pesquisa da autora já tinham sido consagrados profissionalmente no Wall Street Journal (em fase bem anterior à venda do jornal, em 2008, ao império Murdoch de mídia); na revista The New Yorker; e em mais dois livros – Landslide, sobre a desintegração do governo Ronald Reagan entre 1984 e 1988, e Strange Justice, sobre a aprovação controvertida do juiz Clarence Thomas para a Suprema Corte.

mayer_janeA expressão dark side (o lado maligno, escuro, sinistro), que dá título ao livro, foi usada no programa “Meet the Press”, da NBC, ao ser o entrevistado Cheney, a 11 de setembro de 2006, perguntado sobre o lado sombrio que se atribuia ao papel dele no governo. “Parte do meu trabalho é pensar o impensável, encarar o que pode haver no arsenal terrorista contra nós”, tentou justificar ele (saiba mais sobre essa entrevista AQUI, em despacho da Associated Press).

No livro, Jane Mayer (foto ao lado) afirma que os arquitetos da rede de prisões secretas para torturar detidos, usadas durante os dois mandatos de Bush na Casa Branca, integravam grupo pequeno, mas poderoso, enquistado no governo. Cheney estava no centro do esforço mas delegava muitas das operações a outros, cabendo ao seu conselheiro jurídico David Addington um conjunto de tarefas macabras.

Descrito como prepotente, implacável e arrogante, Addington era o executor da estratégia. Na prática, destruia qualquer desafio aos abusos e excessos com xeque-mate de que tudo o que se fazia tinha sido sancionado pelo próprio presidente. Ao mesmo tempo, descartava como “fraqueza” e “ingenuidade” todo tipo de questionamento de ordem jurídica e moral.

Advogados para qualquer papel

Ao analisar o livro para o New York Times, o professor de História Alan Brinkley – da Universidade de Columbia, em Nova York onde foi o decano de sua especialidade entre 2003 e 2008 (saiba mais sobre ele AQUI) – referiu-se em particular ao infame memorando de John Yoo, hoje professor de Direito na Universidade de Berkeley e que servia antes no Escritório de Assessoria Jurídica do Departamento de Justiça (leia sua resenha na íntegra AQUI).

Para dar cobertura legal à tortura, Yoo simplesmente buscou “redefinir” o que é tortura (saiba mais AQUI). Outros que contribuiram para o vergonhoso esforço pro-tortura foram George Tenet, diretor da CIA e sempre inclinado a agradar superiores; Alberto Gonzalez, que passou de conselheiro jurídico de Bush na Casa Branca a Procurador Geral, até ser forçado a renunciar; e William Haynes, conselheiro jurídico do Pentágono.

Graças a tal exército de subalternos ambiciosos, muitos deles só contratados por se prontificarem a alugar o conhecimento fornecendo aos donos do poder pareceres que se ajustavam às suas intenções torpes, ações indecentes e ofensivas aos direitos humanos eram acobertadas. E a chamada “guerra ao terror” de Bush tornou-se, como diz o título de The Dark Side, uma guerra aos próprios ideais americanos.

Todos eles, para Brinkley, tiveram papéis vitais. “Instado por Cheney e seu protegido Addington, Bush invalidou as convenções de Genebra e, sem o admitir publicamente, sustou o habeas corpus para suspeitos de terrorismo – obstáculos importantes à tortura. Além disso, subverteu-se a convenção internacional contra a tortura (de 1984) que, sob a liderança dos EUA, definira a tortura pela primeira vez.

“Isso é o que os inimigos fazem”

Mayer cita ainda no livro o uso do ex-psicólogo militar James Mitchell. Na década de 1950 ele conduzira na central de espionagem (CIA) o programa militar secreto SERE, que ensinava pessoal de alto risco a suportar torturas no caso de captura. O programa (a sigla era para “Sobreviver, Evadir, Resistir, Fugir”), foi adaptado para estudar o nível de dor e humilhação que um torturado é capaz de pode suportar. E tornou-se padrão para interrogatório e tortura.

Introduzidos ao programa na CIA, alguns agentes do FBI indignaram-se com as táticas – que, além do mais, consideraram ineficazes. E se retiraram. “Isso nós não fazemos. Isso é o que nossos inimigos fazem”, disse um deles. Parte do que Mayer relatou também já aparecera antes graças a outros jornalistas – como James Risen e Scott Shane (do New York Times), Dana Priest (Washington Post) e Seymour Hersh (The New Yorker).

Houve oposição de alguns no Departamento de Estado, FBI, CIA e Congresso. Mas pouca gente ousou confrontar Cheney – “claramente a fonte daquelas políticas”, segundo Mayer. Entre os poucos, um pequeno e corajoso grupo de advogados que viam aquilo como ilegal e imoral. Foi o caso de Jack Goldsmith (do Departamento de Justiça), Alberto Mora (Marinha) e Matthew Waxman (Pentágono).

Segundo o livro, um alto chefe militar da prisão de Guantánamo disse à autora que mais da metade dos detidos de Guantánamo sequer eram perigosos. Talvez Bush e Cheney ainda consigam dormir à noite. Mas eles sabem que esses crimes já lhes garantem um lugar na história. E que antes da morte ainda correm o risco de serem chamados a enfrentar um tribunal internacional de crimes de guerra – como os criminosos nazistas depois da derrota alemã na II Guerra Mundial.

(Veja nos dois vídeos do YouTube, abaixo, análises sobre os crimes de guerra do governo Bush. O primeiro ouve a autora de The Dark Side, o outro refere-se à condenação enérgica da Cruz Vermelha Internacional) 


Published in: on dezembro 8, 2008 at 5:55 pm  Comments (1)  

Fora a mídia golpista. Leia a “CartaCapital”

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O apoio esmagador do país ao presidente Lula, admitido em manchete pela Folha de S.Paulo (com dados de sua DataFolha), representa o mais contundente repúdio à mídia golpista (dos mervais, leitoas, alexandresgarciais, clovisrossis, reinaldos, mainardis & jabores) desde a reeeleição há dois anos. E o momento não podia ser mais oportuno, já que a reportagem de capa de CartaCapital (capa abaixo, à esquerda) é sobre a condenação do banqueiro Daniel Dantas e os detalhes de uma trama secreta de arapongagem gilmariana no Supremo Tribunal Federal.

Leia estes parágrafos iniciais da reportagem assinada por Leandro Fortes na revista de Mino Carta:

carta_0812191Os funcionários do Supremo Tribunal Federal assistiram a uma manifestação de fúria do presidente da casa, Gilmar Mendes. A tarde da terça-feira 2 mal havia começado e as agências de notícias e os sites na internet começavam a noticiar a decisão do juiz Fausto De Sanctis, que condenou o banqueiro Daniel Dantas a 10 anos de prisão. Não foi a condenação em si a provocar a ira de Mendes, mesmo se sabendo que o ministro transformou o caso Dantas em uma diatribe pelos direitos individuais contra o aterrador “Estado policial”. O ponto era a menção, na sentença do magistrado de primeira instância, de uma informação até então desconhecida por ele e pelo distinto público. “Agora pego esse cara”, afirmou, segundo relatos narrados à CartaCapital. O cara é De Sanctis.

À informação. Na página 281 da sentença há o registro de que, entre 4 de junho e 7 de julho, Hugo Chicaroni, condenado a sete anos de prisão por tentar corromper o delegado federal Victor Hugo Ferreira, ligou nove vezes para o telefone do coronel da reserva do Exército Sérgio de Souza Cirillo. A dupla pertencia aos quadros da mesma empresa, o Instituto Sagres, especializada, de acordo com o próprio site, em política e gestão estratégica aplicada. É de Chicaroni a jurisprudência, firmada em conversa gravada pela PF, de que Dantas usufrui de “facilidades” nos tribunais superiores do Brasil. Cirillo havia sido contratado por Mendes, 23 dias depois de deflagrada a Operação Satiagraha, para montar um núcleo de inteligência no STF. A investigação rastreou a troca de telefonemas a pedido da defesa de Chicaroni, que solicitou a quebra do sigilo à Justiça. 

Ao tomar conhecimento do fato, Mendes declarou-se “surpreso” e solicitou uma investigação ao Ministério Público para saber se o coronel tem relações com Dantas. Cirillo disse à CartaCapital que nas nove vezes em que falou com Chicaroni tratou da impressão de cartões de visita do colega de trabalho. “Ele foi quem mais distribuiu cartões do Sagres, agora isso nos preocupa”, reflete Cirillo. 

A entrada do coronel nesta história torna o episódio da Satiagraha, deflagrada em 8 de julho, e seus desdobramentos ainda mais intricados. Cirillo é um personagem capaz de colocar o presidente STF em uma saia-justa. O militar pode confirmar que foi no gabinete da presidência do tribunal que um repórter da revista Veja teve acesso a um relatório sigiloso do setor de inteligência sobre a possibilidade de ter havido escuta ambiental na Alta Corte. Apesar de inconclusivo, o tal relatório motivou uma reportagem de capa da revista, virou tema de debate nacional e serviu como elemento da tese do “Estado policial”, mais tarde reforçada pelo vazamento de um diálogo entre Mendes e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). 

Sabe-se, até o momento, que a Polícia Federal não encontrou nenhum vestígio da existência do tal grampo, mas o episódio provocou uma leve crise institucional. Mendes atribuiu o grampo até hoje não comprovado à Agência Brasileira de Inteligência e chamou o presidente Lula “às falas”. O Planalto, sob pressão, afastou o delegado Paulo Lacerda da direção da Abin

O próximo vôo do Supremo Presidente

Até aí, o texto da revista, reproduzido no web site (acesse AQUI). O resto está na edição impressa da revista, nas bancas desde sexta-feira. A nomeação de Cirillo, pelo próprio Gilmar Mendes, e as escutas legais da Polícia Federal que flagraram troca de telefonemas entre ele e Hugo Chicaroni (condenado junto com Dantas por intermediar propina) podem explicar porque, ao invés de ser comunicado o suposto grampo à Polícia Federal, vazou-se a informação à revista Veja.

Conforme a interpretação de Paulo Henrique Amorim (leia AQUI), Chicaroni é da ABIN particular de Gilmar Mendes e os dois conversaram por telefone seis vezes. “Simples, meu caro Watson. É só divulgar o áudio dessas seis conversas. Sim, porque o país não agüenta mais o grampo SEM áudio da Veja e do deputado serrista Marcelo Itagiba”. Convenhamos: faz sentido.

O novo capítulo que se teme é mais um vôo apressado do presidente do STF para salvar o banqueiro Daniel Dantas, já beneficido por dois habeas corpus dados por Mendes, da condenação pelo juiz Fausto De Sanctis, já consumada, a 10 anos de reclusão por corrupção ativa. Foi, ao menos, o que previu um cartoon de Nani (veja abaixo) saído no blog Vi o Mundo, de Luiz Carlos Azenha (conheça-o AQUI).

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Published in: on dezembro 7, 2008 at 2:35 pm  Comments (5)  

Nery e a “Tribuna”, de Lacerda a Helio

 

neryDe Salvador o colunista Sebastião Nery, meu vizinho há décadas no espaço da Tribuna da Imprensa, enviou seu relato-depoimento sobre o nascimento do jornal, em dezembro de 1949. Nery estava então no seminário. Só passaria a ler todos os dias a Tribuna de Carlos Lacerda a partir de 1951, já depois de trocar Salvador por Belo Horizonte, onde eu o conheci (saiba mais sobre Nery AQUI).

Como ele, discordei da linha golpista contra a posse de JK, que se seguiu à campanha do mar de lama, atentado da rua Tonelero e suicídio de Getúlio Vargas. Depois da derrubada do presidente João Goulart e da instalação da ditadura militar, acompanhamos a resistência heróica do jornal, já então sob a direção de Helio Fernandes, as prisões e confinamentos do diretor, os 10 anos de censura prévia e o atentado a bomba perpetrado pelos próprios militares na obsessão de silenciar a imprensa. Vale a pena ler o relato, publicado na Tribuna Online (veja AQUI) e reproduzido abaixo:

VIDA, PAIXÃO E IDA DE UM JORNAL – Sebastião Nery

Salvador – O Panteon (salão nobre) do velho, venerando e trisecular Seminário Central de Santa Tereza da Bahia, entre a Ladeira de Santa Tereza e a Rua do Sodré (hoje o Museu de Arte Sacra da Bahia), estava cheio de padres e bispos naquela tarde de dezembro de 1949.

Na frente, na mesa, o padre reitor, Monsenhor Monteiro, o diretor do Seminário Menor, monsenhor Veiga, dois bispos e um homem magro, narigudo, olhos fortes atrás dos óculos bem pretos: Carlos Lacerda, jornalista do Rio de Janeiro. Nós, seminaristas do Seminário Maior (Filosofia e Teologia), tínhamos sido chamados para também ouvi-lo.

Não sei se ele estava ali por conseqüência do Congresso Eucarístico Nacional, que acabava de realizar-se aqui em Salvador, em comemoração dos 400 anos de fundação da cidade. Mas ele era o dono da reunião.

Carlos Lacerda

carlos-lacerda1Em um silêncio de claustro, começou a falar, com seu galopante vozeirão de barítono. Citou amigos e companheiros da “intelectualidade católica” do Rio: Padre Helder Câmara, Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), Gustavo Corção, Octavio Faria, Gladstone Chaves de Melo, etc.

Seu recado era claro e direto: a imprensa brasileira era comandada por homens sem nenhum compromisso com os princípios cristãos e a Igreja Católica: Assis Chateaubriand, o superpoderoso, Paulo Bittencourt e Roberto Marinho no Rio, Julio de Mesquita Filho e outros em São Paulo. E mais, e pior: os norte-americanos estavam entrando no Brasil, a partir das crianças, da juventude, das famílias, com seu enxame de revistas em quadrinhos, traduzidas e distribuídas pelo Grupo Disney. E a ideologia deles nada tinha a ver com a Igreja Católica. Pelo contrário: eram agnósticos.

Tribuna da Imprensa

Carlos Lacerda queria e pedia o apoio da Igreja Católica para um jornal que iria lançar em breve, “muito em breve, logo, logo”: a Tribuna da Imprensa, que seria a voz anunciadora de um novo tempo na imprensa brasileira. Atrás dela, viriam revistas para pregarem “uma visão cristã e católica da vida” e “um caminho cristão e católico para o Brasil”.

Foi aplaudido e calorosamente apoiado. Saiu dali com um pequeno exército de alguns bispos, padres e seminaristas encantados com seu projeto, suas propostas e inteiramente conquistados pelo fervor de sua oratória ardorosa, convincente, irresistível. Um soldado de Cristo.

Foi embora e cumpriu a promessa: antes que aquele mês de dezembro de 1949 se acabasse, estava circulando no Rio de Janeiro a Tribuna da Imprensa, um jornal diferente, nascido para “o bom combate”.

UDN

Em 1950, alguns exemplares circularam pelo Seminário, como jóia rara, já que nós seminaristas não tínhamos acesso à imprensa “do Sul”. Mas a partir do ano seguinte, estudante, professor e jornalista em Minas, passei a ler a Tribuna todos os dias, já que chegava invariavelmente a Belo Horizonte, até pela força da UDN, da qual Lacerda era estandarte.

Lia diariamente aqueles seus artigos em letras gordas, do alto a baixo da página, como se tivessem sido escritos em cima de um cavalo a galope. E Duarte Filho, Stefan Baciu, Gladstone Chaves de Mello, tantos. De repente, passei a discordar completamente . Eu apoiava Juscelino para Presidente e a UDN de Lacerda era cada dia mais um terremoto golpista.

hfHelio Fernandes

Veio o golpe de 64, Lacerda no comando, todos nós na cadeia. Impossibilitado de manter-se ao mesmo tempo na direção do jornal e no governo da Guanabara, Lacerda já havia passado a direção do jornal para o filho Sergio. E logo Helio Fernandes assumia o jornal com todas as responsabilidades de uma voz sempre poderosa na política do Rio.

Helio pagou o preço desde o primeiro instante. A política econômica de Roberto Campos era um crime contra a Nação e Helio denunciava. Havia torturas nos quartéis e Helio denunciava. Começava a censura à imprensa e Helio denunciava. Em 1966, todos os institutos de pesquisa apontavam Helio como o deputado que seria o mais votado da Guanabara. A mesquinharia e covardia política de Castelo Branco e seu ministro da “Justiça” Juracy Magalhães cassaram Helio Fernandes na véspera da eleição. E logo veio o tropel das violências: confinado em Fernando de Noronha, Corumbá, Pirassununga, dezenas de vezes preso. E a censura permanente no jornal, o mais censurado da imprensa brasileira.

40 anos

Em agosto de 68, entrei no escritório da Editora Saga, no Edifício Avenida Central, no Rio, de José Aparecido, Fernando Gasparian e Helio Ramos, os três cassados pela ditadura. Também lá Enio Silveira e Helio Fernandes, que naquele dia havia escrito uma nota elogiando meu livro Sepulcro Caiado, o verdadeiro Juracy. Agradeci e logo ele me perguntou por que não escrevia na Tribuna. No dia seguinte, comecei minha coluna.

E já são 40 anos, com cinco anos de intervalo na Ultima Hora. Como o jornal não se dobrava, não negociava, apelaram para a violência. Uma bomba brutal explodiu o jornal inteiro, oficinas, redação, tudo. Veio a anistia, todos os atingidos recebendo reparações e indenizações. Juízes e Tribunais mandaram indenizar a violência à Tribuna. O governo Lula (logo ele!) recorreu e um ministro do Supremo há 3 anos segura o processo. 

Um crime contra a imprensa brasileira. O jornal, exangue, suspendeu a circulação. Mas os governos passam e a Tribuna voltará, reviverá.

Published in: on dezembro 6, 2008 at 8:43 am  Comments (1)  

Ainda o passado patético da mídia golpista

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(A manchete acima e as demais reproduzidas abaixo escancaram o coro  unânime dos jornalões em 2006, no desespero para impedir a reeleição de Lula – exatamente o contrário da submissão dócil aos ditadores)

Há mais reflexões a fazer sobre os quase 60 anos da Tribuna da Imprensa e o papel submisso da imprensa golpista, que se acha valente hoje na trama contra um governo democrático apoiado por 80% da população mas nos 20 anos da ditadura militar, depois do golpe de 1964 contra um presidente legítimo, aplaudiu cada um dos cinco ditadores que matavam e torturavam (além de censurar a própria mídia).

Da mesma forma como hoje chega ao cinismo de denunciar inexistentes ameaças à liberdade de imprensa, naquele passado sinistro recebia visitas diárias de censores militares à redação e jurava ao mundo, em suas primeiras páginas, haver no Brasil um regime democrático com imprensa livre. Por festejar o falso milagre brasileiro dos ditadores, como foi lembrado antes, essa mídia covarde ganhou seus atuais impérios.

Os primeiros jornais a desaparecerem depois de 1964 foram Última Hora e Correio da Manhã. Ousaram desafinar no coro da submissão aos novos donos do poder. O caso da Última Hora – a cadeia de jornais criada por Samuel Wainer – foi expressivo ter sido a única grande empresa jornalística a repudiar o golpe, já que apoiara o governo João Goulart, derrubado pelos generais.globo_300906

Da resistência à promiscuidade

O Correio, ao contrário, era duro na crítica, tendo dado um “Basta!” e gritado “Fora!” em dois editoriais históricos. Mas teve o mérito de se indignar contra os excessos e abusos do novo regime, inclusive a primeira onda de torturas. Com o dono da UH exilado em Paris – até inclinado, inicialmente, a fazer concessões para retornar – a responsabilidade da resistência ficou para o Correio.

O cronista Carlos Heitor Cony agigantou-se no desafio, apoiado pela equipe – Edmundo Moniz, Otto Maria Carpeaux, Márcio Moreira Alves, Hermano Alves, etc, Niomar Moniz Sodré à frente. Esgotada sua fase inicial, o regime reciclou-se com o Ato Institucional 2 (fim dos partidos e cassações em seguida à derrota eleitoral de 1965) e o AI-5 de 13 de dezembro de 1968, já sob o segundo ditador (Costa e Silva).

jb_3010691Por causa de sua resistência consequente, o Correio passou a viver sua agonia lenta nas mãos de empreiteiros ligados ao regime (os irmãos Alencar-Bobagem), que o arrendaram para obter favores oficiais e adoçar negociatas. Na mesma data do Ato 5, o Jornal do Brasil lançou então seu desafio histórico, a edição do dia 14, pessoalmente ordenada pela condessa Pereira Carneiro.

Com a prisão do editor Alberto Dines e do diretor José Sette Câmara, o JB recuou. O preço da libertação dos dois foi a rendição do jornal. Encerrou-se então o único desafio real do JB à ditadura. Para a Tribuna, determinada a resistir, o 13 de dezembro significou o início de 10 anos de censura – e da sucessão de prisões e confinamentos de Helio Fernandes.

Prédios novos e Brasil grande

O diretor da Tribuna fora impedido três anos antes de ser candidato ao Congresso – na mesma eleição que dera cadeiras a dois jornalistas do Correio na Câmara e a mais dois na Assembléia do Rio. E enquanto tudo isso acontecia, O Globo nada tinha a reclamar, ao contrário. O seu novo canal de televisão ia muito bem, obrigado – em intimidade promíscua com a ditadura militar.estado_200906

Foi a fase das definições, cada um vendia a alma ao diabo como podia. A Veja começava. O Globo, empurrado pelo parceiro Time-Life, engordava sua TV, porta-voz oficiosa da ditadura. A Folha de S. Paulo preparava-se para descobrir a vocação para o poder, através de um dedo-duro residente. O concorrente Estado de S. Paulo tinha sua facção no regime, apesar de prejudicado pelas ligações com Carlos Lacerda, em desgraça.

Sob censura, a Tribuna ficou isolada – sem qualquer solidariedade dos outros, expectadores omissos. Alternativos novos nasciam e morriam (Folha da Semana, Politika, Crítica, etc.), sem falar no miraculoso Pasquim, que apostou no ridículo do regime ao nascer, deu um salto para 200, 300 mil exemplares e recuou a menos da metade ao ser vítima de censura e repressão.

veja_23set06Opinião nasceu no fim de 1972, quando os jornalões festejavam em seus prédios novos a euforia do Brasil Grande do ditador Garrastazu Médici e omitiam as informações sobre torturas e abusos. Previa-se uma venda de 20 mil exemplares, mas ela cresceu imediatamente para 40 mil, tal era a fome de notícias verdadeiras da parte dos leitores e a sonegação delas pelos jornalões.epoca_290906

A intimidação pelo exemplo

Como a circulação de Opinião, mesmo sob censura (imposta a partir de seu número 8), se mantinha, o jornal viu o castigo ampliar-se com censura mais devastadora – a cargo do Centro de Informações do Exército (CIEx), em Brasília. A receita serviria ainda, depois, para outros que se atrevessem a imitar o exemplo – Ex, Extra, Movimento, Reunião, Versus, Argumento, Coojornal, Em Tempo, Cadernos de Opinião, etc.

folha_300906Os jornalões fizeram os piores papéis – deles, só Estado de S.Paulo e Veja chegaram a ter censura direta (por pouco tempo). O JB foi ao extremo de entregar à Polícia uma primeira página inteira para as “confissões” de um espião da CIA, Adauto Santos, infiltrado no PCB (até a diagramação viera pronta). E quando o ex-deputado Rubens Paiva  morreu de tortura o JB fez ao regime o favor de assumir como sua a versão oficial de que ele tinha sido baleado ao tentar fugir.

O diretor-presidente M. F. Nascimento Brito não hesitou em sair pelo mundo a negar (até como diretor da Sociedade Interamericana de Imprensa) que havia censura no Brasil. Achava que em troca teria sua rede de TV para competir com a Globo. Mas foi impossível bater a subserviência dos Marinho, cuja façanha maior fracassou em 1982 – a fraude para derrotar Leonel Brizola no Rio e “eleger” o candidato da ditadura, Moreira Franco (escândalo Pro-Consult).

Published in: on dezembro 4, 2008 at 8:03 am  Comments (2)  
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