A eleição de 1864 e o assassinato de Lincoln

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A litografia acima reconstitui o momento em que o ator John Wilkes Booth atira em Lincoln no camarote no teatro. Este blog tem citado com frequência o papel da escravidão negra no debate da Constituição americana, o efeito retardado (a guerra civil) do difícil compromisso entre o norte e o sul na questão e o legado do racismo. Mas faltou dar mais atenção aos graves problemas enfrentados por Abraham Lincoln e seu Partido Republicano no final do primeiro mandato e no esforço pela reeleição em 1864 (mais sobre Lincoln e a guerra AQUI).

Ao contrário do que alguns ainda supoem, o primeiro vice-presidente de Lincoln não foi Andrew Johnson, democrata do sul. Foi o esquecido Hannibal Hamlin, tão republicano e tão vigoroso na oposição à escravidão como o próprio Lincoln, tendo aderido ao partido por causa dessa posição. Ex-governador do Maine e senador (até tornar-se vice-presidente), ele foi no princípio muito influente junto ao presidente (mais sobre Hamlin AQUI).

Na fase final do primeiro mandato – com o rumo da guerra civil em dúvida e os distúrbios anti-recrutamento em Nova York assustando o governo – Hamlin inclinou-se para o lado dos “republicanos radicais”, que queriam trocar Lincoln, como cabeça de chapa, pelo secretário do Tesouro Salman Chase ou um dos generais descontentes com a situação. Isso pode ter sido a gota dágua para a decisão posterior do presidente de substituí-lo como vice.

1864_mcclellanA estratégia que virou o jogo

Os radicais achavam que Lincoln não se reelegeria. Houve um momento em que o próprio presidente julgou que corria o risco de sofrer derrota esmagadora. Mas ao invés de desistir, buscou reverter o quadro com estratégia ousada, nos campos militar e político, enquanto o Partido Democrata iniciava a aposta no candidato George B. McClellan (foto ao lado – saiba mais AQUI), general que Lincoln demitira pelos erros à frente do Exército do Potomac.

Se a facção republicana radical questionava os rumos de Lincoln na guerra, no partido da oposição havia o bloco favorável a negociar a paz, pondo fim à guerra. A plataforma democrata oficializaria essa posição. O mais notório democrata pro-guerra, Andrew Johnson, era então governador militar do Tennessee (já sob ocupação do norte, como a Louisiana). Lincoln, que o nomeara, achou que daria um bom vice, no lugar de Hamlin (mais sobre Johnson AQUI).unionnomination

O presidente foi mais longe: declarou essa chapa do Partido da União (Union Nomination, conforme explicavam os cartazes – veja ao lado) e não apenas republicana. Paralelamente, endureceu as operações na guerra. O efeito da estratégia, com a presença de Johnson na chapa, foi o de atrair o apoio de democratas contrários à plataforma pro-paz do partido, repudiada até pelo próprio candidato, McClellan, que limitava sua crítica à maneira como Lincoln conduzia a guerra.

Aquela noite no Ford’s Theatre

Amplamente vitorioso na guerra e no front político, Lincoln estava confiante no projeto. Sua chapa (com Johnson) tinha vencido, por larga margem, a votação popular (em meio à guerra), que de fato ele estivera gravemente ameaçado de perder. Obteve 55% dos votos contra 45% dados a McClellan e George Pendleton. No Colégio foram 212 votos eleitorais (22 estados) contra apenas 21 (três estados).

Eram previsíveis algumas dificuldades dentro de seu próprio partido, onde sua linha mais moderada para o pos-guerra entraria em choque com a dos radicais republicanos liderados por Thaddeus Stevens (na Câmara), Charles Sumner e Benjaminn Wade (no Senado), partidários de um duro acerto de contas com os rebeldes do sul. Republicano e vencedor da eleição, estava em condições de superar os obstáculos.

Lincoln tinha cumprido apenas umas poucas semanas do segundo mandato de quatro anos ao ser assassinado no Ford’s Theatre (conheça o teatro AQUI). Seu vice e sucessor era sulista e do partido da oposição. Os republicanos radicais sentiram-se então como se fossem vítimas de usurpação. Mas era o resultado – inesperado, claro – do remédio imaginado pelo próprio Lincoln para enfrentar e vencer os problemas criados pelos próprios radicais.

Mais 100 anos de racismo

johnson_andrewO problema maior foi que, no desdobramento, a própria conduta de Andrew Johnson (veja-o à esquerda) tornou-se um desafio ao Legislativo e ao partido do governo. Por ter preferido uma versão branda da Reconstrução no sul, abraçando o enfoque sulista dos “direitos dos estados” e a tese de que os negros eram inferiores, o presidente acabou por provocar resposta dura dos partidários de um acerto de contas radical.

Para ele, os estados do sul não tinham deixado a União. Seus direitos, achava ele, deviam ser restaurados, com anistia para todos (menos uns poucos confederados). No confronto inevitável, Johnson sobreviveu ao impeachment (saiba mais AQUI) mas a linha dura da Reconstrução, com seus carpetbaggers e aproveitadores, castigou todo o sul até 1877, quando Rutherford Hayes, feito presidente num conchavo com a elite sulista, retirou as tropas federais e devolveu o poder aos brancos.

Com isso os negros do sul passaram mais um século sem direito de voto ou quaisquer direitos, em estados de partido único – o Democrata, que ainda se dava ao luxo de manter a bandeira da Confederação (e do racismo) tremulando no alto dos prédios públicos, do Executivo, Legislativo e Judiciário. Esse quadro constrangedor, marcado ainda pela Ku Klux Klan e linchamentos, só mudou com a revolução dos direitos civis e leis aprovadas em 1964-65.

Published in: on novembro 26, 2008 at 6:22 pm  Comments (1)  

Aquele santo padroeiro dos conservadores

reagan_01Desde que foi canonizado – na unanimidade dos obituários feitos pelos políticos e pela mídia, no próprio dia de sua morte e nos seguintes – Ronald Wilson Reagan (foto ao lado, saiba mais sobre ele AQUI) virou um santo sem mácula, padroeiro do conservadorismo americano. Nunca ouse, por favor, fazer a menor restrição a essa figura inatacável, ainda que seja apenas uma avaliação sensata sobre sua duvidosa vocação de ator.

Um aliado dele – Dan Quayle, que foi vice de George H. W. Bush (o pai) – virou motivo de chacota no mundo (continua a ser, até hoje) porque corrigiu um garoto que escrevera corretamente no quadro negro a palavra potato (batata). Nunca se recuperou. Se tivesse acontecido com Reagan, imagino que as mais altas autoridades da língua mudariam prontamente a grafia da palavra para adaptar a realidade ao erro dele.

Uma vez o influente colunista James Reston, do New York Times, afirmou que durante os oito anos de Reagan “a Casa Branca viu-se forçada a fazer mais correções de declarações públicas dele do que já tinha feito até então em relação a qualquer outro presidente”. Reagan não mentia cinicamente como Richard Nixon, mas dizia mais asneiras – e com mais regularidade e frequência – do que qualquer outro.

Realidade, fantasia e fraude

reagan_bonzoAlguns dos escorregões eram embaraçosos mas pouco relevantes – ao menos para quem já fizera no cinema até papel de psicólogo de macaco – no filme Bedtime for Bonzo, da foto à direita (veja o DVD abaixo e saiba mais AQUI). Coisas como o brinde “à Bolívia” embora estivesse no Brasil (no fundo, para Reagan, não havia diferença entre os dois). Ou chamar Samuel Doe, então chefe de estado da Libéria, na África, de “Chairman Moe” – obviamente confundido, não se sabe bem porque, com o “Chairman Mao” do livrinho vermelho. E mais coisas parecidas.

Esses seriam tropeços inocentes, meio infantis, de gente acostumada a decorar o papel (para um filme) ou ler o texto (no noticiário da TV) sem entender direito de que se tratava. Como Cid Moreira no seu tempo de “Jornal Nacional” – ou, talvez, o Seu Boneco atual, William Bonner. Dá perfeitamente para conviver com isso, mas não com os erros mais sérios de Reagan – exageros, inverdades explícitas, estatística inventada, histórias fabricadas.

bedtime_for_bonzoNa atual discussão sobre a indústria automobilística nos EUA repete-se todo dia que o ganho médio do trabalhador é US$72 por hora – conta falsa, pois tal número refere-se ao total da despesa dos salários dividida pelo número dos empregados e horas trabalhadas. Mas ao total está somado ainda o pagamento das pensões dos aposentados. É o clássico estilo Reagan, que nunca admitia estar errado. Faz até lembrar as histórias dele sobre o que chamava de “rainhas do welfare“.

Aquelas rainhas de Cadillac

reaganDurante uns seis anos, já depois de ter cumprido os dois mandatos como governador da Califórnia mas antes de se tornar presidente, Reagan repetia como real sua história destinada a desacreditar o welfare (benefícios oficiais, semelhantes ao bolsa-família). Segundo ele, “rainhas do welfare” (welfare queens) viviam no luxo às custas do Estado, desfilando em Cadillacs – tudo graças a fraudes.

No início os relatos podiam parecer verdadeiros. Mas Reagan passou a aperfeiçoar um caso específico com requintes mais suculentos. Falava de certa “rainha de welfare em Chicago”, que usava 80 nomes, 30 endereços e 12 carteiras de Social Security para receber benefícios por quatro maridos mortos que, na verdade, nunca tinham existido. No total, dizia, ela embolsava mais de US$ 150 mil por ano.

Alguns jornais investigaram a história e concluiram que ele só podia estar se referindo a uma mulher condenada em Chicago por usar dois nomes e receber US$ 8 mil. Era o único caso real parecido. Ainda que a verdade fosse inteiramente diferente, Reagan preferiu ignorá-la. Insistiu na própria ficção e continuou a repetir a história absurda e falsificada. Fazia mais sucesso – e funcionava melhor no discurso contrário à ajuda oficial a necessitados.

O presidente fora de controle

reagan_02Como tinha conquistado o direito de criar a própria realidade, nos seus últimos anos de vida – dentro e fora do governo – Reagan passou a fantasiar mais. Em novembro de 1983, ao receber na Casa Branca o premier israelense Yitzhak Shamir, contou a ele que servira como fotógrafo numa unidade do Exército encarregada de filmar a libertação de um campo de extermínio nazista na II Guerra.

Em fevereiro do ano seguinte contou a mesma história a Simon Wisenthal, o célebre caçador de nazistas. Não mentia: apenas tornara-se incapaz de distinguir a ficção da realidade. De fato serviu ao Exército, como outros atores, durante o período da guerra (veja-o acima no uniforme de capitão, quando achava estar lutando na guerra). Limitava-se a narrar ou interpretar filmes de treinamento militar. Em Hollywood. Não saiu dos EUA, apesar de se convencer depois de que tinha até libertado campos de concentração.

Essa conduta dele foi analisada em 1987 pelo cientista político Michael Rogin no livro Ronald Reagan, the Movie – and Other Episodes in Political Demonology (veja a capa ao lado e saiba mais AQUI). Mais tarde, foi pior.rreagan_the-movie Reagan passou a falar de filmes como se fossem fatos acontecidos com ele. Em discurso solene relatou a tragédia do piloto heróico que preferiu morrer no avião a abandonar sua tripulação. Era um episódio de A Wing and a Prayer, um filme com Dana Andrews. Terá Reagan sido mesmo um santo? Pode ser. Mas quem governava o país enquanto ele “viajava” no Alzheimer?

Published in: on novembro 25, 2008 at 5:31 pm  Comments (1)  

Novos “think tanks” no centro do palco

cap_thinktankO que um progressista é? De visão ampla. Inovador. Otimista. Pragmático. Justo. Respeitoso. Patriota. E o que não é? De visão estreita. Temeroso de idéias novas. Ingênuo. De mente fechada. Egoista. Arrogante. Xenófobo.

O círculo ao lado, com o que ele é e não é, está no web site do Center for American Progress, CAP (saiba mais sobre ele AQUI). E de Nova York a jornalista Andrea Murta informou na Folha de S. Paulo: “o esquerdista Centro para o Progresso Americano” está emplacando membros na equipe do presidente eleito Barack Obama e poderá ter no novo governo “papel semelhante ao ocupado pela conservadora Heritage Foundation no governo Ronald Reagan” (leia a íntegra AQUI).

Certamente a informação faz sentido, até porque a primeira escolha de Barack Obama foi John D. Podesta, presidente e executivo-chefe do CAP (além de ex-chefe de gabinete do presidente Clinton  na Casa Branca e professor da escola de Direito da Universidade de Georgetown) para chefiar a equipe de transição. Mas é um exagero chamar o CAP de esquerdista (a própria escolha do nome “Centro” pode ser deliberada, para explicitar a posição centrista).

E dificilmente ele terá o papel relevante da Heritage Foundation. Há diferença razoável entre o pequeno CAP e aquela fundação que atuou com tanta desenvoltura no governo Reagan, mesmo dividindo o espaço com o AEI (American Enterprise Institute), também ativa e de direita. Fora do palco central nos oito anos de Clinton (quando davam assistência à maioria republicana do Congresso), as duas – abrigando vários dos neocons – ainda retornaram, com mais força, nos dois mandatos de George W. Bush (2001-2009).

Depois da guinada à direita

Parece natural o CAP – e seu parceiro CAP Action Fund, também presidido por Podesta – dividir o espaço com outras organizações igualmente inclinadas para o centro, como a Brookings Institution, antiga, tradicional e bem maior (é onde ainda serve o ex-embaixador Lincoln Gordon). Esquerdista seria o também atuante – e bem menos dotado de recursos – Institute for Policy Studies (IPS), muito ativo na Washington do presidente Jimmy Carter.

O que aconteceu entre a fase final dos protestos contra a guerra do Vietnã (dias agitados, que incluiram a cobertura de Watergate) e o início promissor do governo Carter foi uma espécie de reorganização da direita, que passou a cooptar quadros nas Universidades para combater a fantasiosa “ameaça vermelha”. Daí a proliferação em todo o país dos think tanks conservadores, hoje amplamente predominantes.stone-header1

Foram devastadores os efeitos disso no jornalismo e na área acadêmica. Ainda no início do governo Reagan, ouvi uma queixa amarga do jornalista I. F. Stone (visto ao lado, no traço de David Levine), o lendário criador do I. F. Stone’s Weekly. Ele contou como a direita tinha passado a recrutar – ou melhor, “comprar” – os mais promissores estudantes universitários com propostas irrecusáveis (saiba mais sobre Stone AQUI no magnífico web site criado para contar sua história e expor sua obra).

Apenas “idéias progressistas”

Além disso, institutos como o IPS – onde estava Orlando Letelier, ao ser morto em atentado terrorista no coração de Washington, em 1976 – tornaram-se alvos de campanhas difamatórias desencadeadas por organizações de extrema direita como a Accuracy in Midia (AIM) e sua parceira da área acadêmica, Accuracy in Academia (AIA), dedicadas então a ressuscitar, no estilo macarthista, a “ameaça comunista”.

Naquele clima institutos como o IPS – atacado até em anúncios de página inteira dos jornais pela direita enfurecida – tornaram-se “controvertidos” e perderam parte de suas fontes de financiamento. Atualmente esses grupos têm dificuldade para sobreviver, sempre caçados por impérios de mídia como os de Rupert Murdoch (Fox e outros veículos) e do reverendo Moon (Washington Times e outros).

Os mais novos – como o CAP, criado em 2003 – preferem ficar no centro e evitam ir para a esquerda, com medo do rótulo. No máximo, definem-se como “progressistas”. O presidente Podesta, extremamente leal a Clinton, até nos piores momentos, fica longe da definição ideológica. O lema no alto da página do CAP na Internet é “idéias progressistas para uma América forte, justa e livre”. Também em destaque na página da Internet estão as quatro prioridades progressistas:

  • Restauração da liderança global dos EUA;
  • Aproveitando a oportunidade, chegar à auto-suficiência energética;
  • Distribuição equitativa dos frutos do crescimento econômico progressivo;
  • Criação do sistema universal de assistência à saúde, para todos os americanos.
Moderados até certo pontoblueprint_feature1

Entre os especialistas do Center for American Progress estão alguns expoentes do liberalismo político americano. Morton Halperin, um deles, serviu a três governos (Johnson, Nixon e Clinton), inclusive no Pentágono e no Conselho de Segurança Nacional, onde foi grampeado pelo chefe, Henry Kissinger, depois condenado na Justiça a indenizá-lo pelo crime – com  um pagamento simbólico estipulado pelo próprio Halperin: US$ 5.

Mark Green (mais sobre ele AQUI), outra personalidade do CAP, foi protegido de Ralph Nader no início da carreira. Elegeu-se mais tarde Advogado Público de Nova York e acabou derrotado ao se candidatar a prefeito em 2001. Recentemente Green assumiu a direção da Air America, rede liberal radiofônica de talk shows. Autor de mais de 20 livros, lançou agora Change for America (veja a capa acima), manual progressista para ajudar as mudanças pretendidas por Obama.

Ruy Teixeira (mais sobre ele AQUI), cientista político de ascendência portuguesa, teve o mérito há seis anos de lançar (com John Judis) o ensaio The Emerging Democratic Majority, prevendo que os democratas estavam destinados, demograficamente, a se tornar o partido majoritário dos EUA (exatamente como a previsão correta de Kevin Phillips em favor dos republicanos em 1967). Respeitado por liberais e conservadores como especialista em opinião pública, Teixeira mostra-se centrista.

Não é esse o caso de Eric Alterman (mais sobre ele AQUI), professor de jornalismo, colunista da revista The Nation e autor de vários livros. Sem medo de ser rotulado de esquerdista, ele é duro nas críticas aos impérios de mídia (o de Murdoch em especial) e também colabora ativamente com o web site Media Matters for America, que expôs dia a dia as excessos da cobertura maliciosa contra Obama durante a última campanha presidencial.

Published in: on novembro 24, 2008 at 7:47 pm  Deixe um comentário  

O legado racista no processo eleitoral dos EUA

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(O quadro acima, The Old Plantation, de artista não identificado, retratou uma plantação da Virgínia mais ou menos à época em que foi discutida e aprovada a Constituição, da qual constavam as regras do Colégio Eleitoral)

A eleição de um presidente negro nos EUA ainda pode funcionar como convite ao país para rever regras eleitorais antidemocráticas e cacoetes racistas herdados da velha Confederação do sul. Socorreria, assim, a imagem desacreditada do país que se apresentava ao mundo como modelo democrático – imagem desmentida durante tanto tempo pelo racismo e ultimamente também pelo belicismo bushista.

Quando o presidente George W. Bush chegou à Casa Branca, depois de perder a votação popular no país e ser beneficiado no Colégio Eleitoral pelo roubo de votos na Flórida, governada pelo irmão Jeb Bush, implodiu de vez aquela imagem. Em oito anos, com guerras reais (Iraque, Afeganistão) e imaginárias (ao terrorismo), ele agrediu as liberdades civis, favoreceu e terceirizou a tortura, criou os pesadelos de Guantânamo e Abu Ghrabi.

Já que a derrota esmagadora nas urnas em 2008 extremou o repúdio, dentro e fora dos EUA, a tal desatino, à obsessão neoconservadora de controlar o petróleo alheio e à fracassada política desregulamentadora que produziu uma crise financeira disseminada pelo mundo inteiro, é oportuna ainda a revisão também de outros equívocos históricos que o país tem insistido em subestimar.

À sombra da escravidão negra

foundingfathersIndependentemente da resposta internacional – que também terá de vir, em especial no campo econômico e comercial – os EUA podem fazer o dever de casa com o esforço para remendar a própria imagem. A começar por uma reforma capaz de tornar de fato democráticas as regras de sua eleição presidencial, já que as dos fundadores da república nasceram sob a má influência da escravidão negra.

Criou-se há mais de dois séculos – e prevalece até hoje – um Colégio Eleitoral que se reúne em cada um dos estados (hoje, 50) e no Distrito de Columbia para escolher formalmente o presidente do país (saiba mais sobre o Colégio Eleitoral AQUIAQUI). É o que acontecerá no dia 15 do próximo mês de dezembro. Desta vez, por acaso, ele deve ratificar a escolha feita pelos milhões de eleitores que foram às urnas em número recorde. Mas não tem sido sempre assim.

bush_gorePelo menos quatro vezes na história do país a escolha do Colégio Eleitoral não coincidiu com a que tinha sido feita na votação popular. A última vez em que isso aconteceu foi em 2000 – quando, por uma diferença de meio milhão de votos, os eleitores tinham dado a vitória a Al Gore mas a maioria daquele Colégio, obsoleto e antidemocrático, ficou para o adversário dele, George W. Bush (veja acima a foto de um dos debates entre eles).

O detalhe sórdido em relação a esse processo eleitoral duvidoso é que a própria sobrevivência do sistema antiquado só pode ser atribuída a tradição, sentimentalismo ou nostalgia. Ao ser criado, ele não se deveu a razões sólidas e respeitáveis. O motivo principal, ao contrário, foi a existência da escravidão negra em alguns dos estados participantes da convenção que aprovou a Constituição.

O peso dos escravos no Colégio Eleitoral

Os estados do sul queriam que seus escravos, aos quais obviamente não era dado o direito de votar, fossem contados para ampliar o peso na repartição dos votos eleitorais dos estados. No cálculo então estabelecido, cada escravo equivalia a três quintos de uma pessoa branca. Conta talvez generosa para um racista, mas apenas porque isso aumentava o poder do dono de escravos e, claro, o peso do estado em votos eleitorais.

É verdade que os fundadores consideraram ainda, no debate do processo eleitoral, a dificuldade na época de se ter informações sobre a capacidade dos candidatos presidenciais. Em geral as pessoas conheciam os nomes locais de candidatos a cargos de aldeias, cidades e condados do estado. O Colégio, com eleitores mais qualificados, fazia algum sentido para melhor avaliação de um candidato à presidência.

Mas nem essa razão acessória justifica manter hoje o Colégio Eleitoral, receita potencial de crise. Pois o processo inclui ainda outra regra antidemocrática – a que manda dar todos os votos eleitorais ao candidato que vence num estado. Significa isso que depois da votação são automaticamente anulados todos os votos dados ao derrotado, mesmo que ele tenha recebido até 49,9% da votação. Isso cria distorções insanáveis, até por supervalorizar estados indefinidos, ainda que menos relevantes.

Até quem acha ter Bush, em 2000, derrotado de fato o rival Al Gore na Flórida por 517 votos de vantagem, conforme a contagem suspeita mas oficializada por Katherine Harris, sabe que na votação popular do país Gore ganhou por meio milhão. Será possível defender como democrático ou legítimo tal resultado? Claro que não. Mas é essa a regra em vigor no país que se oferece como exemplo de democracia.

Também uma correção histórica

john_brown_1859Resta lembrar ainda a conveniência de mais correções no legado dos pais fundadores. A Constituição deles, ao contrário do que acham alguns, foi marcada por falhas – por ter resultado de compromissos quase impossíveis, às vezes entre posições opostas. A sangrenta guerra civil, sete décadas depois, resultou disso. Decidido a manter a escravidão o sul racista considerou violados os “direitos dos estados”.

Derrotados, os rebeldes sulistas (“Estados Confederados da América”) passaram a viver o controvertido período da Reconstrução, demonizado até hoje em livros de História dos EUA – da mesma forma como também são demonizados abolicionistas como John Brown (foto à esquerda, feita em 1859, ano em que foi enforcado), que alguns historiadores preferem retratar como louco sedento de sangue por libertar escravos no sul usando armas (saiba mais sobre ele AQUI).

Apenas uma década depois da vitória da União sobre o racismo confederado, o impasse de quatro meses em torno da duplicidade de resultados em estados do sul na eleição presidencial de 1876 levou o candidato democrata Rutherford Hayes, para tornar-se presidente, a fazer conchavo com líderes políticos do sul, num tempo em que se glorificava ali os crimes nefandos da Ku Klux Klan – como o linchamento de negros.

De volta ao poder, a velha elite branca pode então restabelecer a segregação racial por mais um século – até as leis de direitos civis e direito de voto do negro, em 1964-65. O sul dos EUA, além disso, tornou-se um conjunto de estados de partido único, como a URSS de Josef Stalin. Segregados e sem direitos, só restava aos negros tentar a fuga para o norte ou correrem o risco do linchamento sob qualquer pretexto.

Published in: on novembro 23, 2008 at 8:30 pm  Comments (3)  

Da “década da ganância” à “ganância infecciosa”

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Talvez seja esta capa da revista Time, em dezembro de 1986, o melhor retrato da década da ganância – a dos oito anos de Ronald Reagan na Casa Branca (1981-89). O alegre personagem que a enfeita é Ivan (“O Terrível”) Boesky, tido como gênio das fusões e aquisições mas, na verdade, manipulador criminoso de insider information (informações privilegiadas), junto com o parceiro também infame Michael Milken, o rei das junk bonds. A frase Greed Is Good (Ganância é bom), de Boesky, foi perpetuada depois, pelo cineasta Oliver Stone, no filme Wall Street.

jackA dupla Boesky-Milken cumpriu pena de prisão – menos de dois anos cada um. Boesky pagou US$100 milhões de multas, Milken US$200 milhões. Os dois continuam ricos (Milken até criou uma fundação para fins filantrópicos) e são provas de que em Wall Street o crime, além de compensar, faz heróis. Eles se tornaram ídolos de executivos-chefes (CEOs) da geração seguinte – a da “ganância infecciosa”, como a definiu Alan Greenspan. Só que, depois da Enron, da bolha da Internet, da crise subprime e da desintegração financeira, CEO perdeu na mídia o antigo encanto. Em 2002 Jack Welch, da GE, tinha recebido mais do que o papa João Paulo II como adiantamento para um livro (veja a capa ao lado, à esquerda). E o título Jesus, CEO – Using Ancient Wisdom for Visionary Leadership, dado a um livro anterior (veja a capa abaixo, à direita) buscara aproximar os executivos-chefes de corporações da imagem do próprio Jesus Cristo. 

Deixou finalmente de ser assim. Nas reuniões de acionistas a reverência do passado cedeu lugar até a questionamentos. Às vezes são até ridicularizados. De Steve Case, glorificado nas primeiras páginas à época da fusão da AOL com a Time Warner, que se revelaria desastrosa, exigiram-se explicações para as perdas bilionárias. Na GE, Jeffrey Immelt foi encurralado como nunca se fizera antes com Welch, cujo passado passou também a ser revisto com olhos críticos, de forma implacável.jesus_ceo

O que aconteceu nos EUA para mudar tão radicalmente a cabeça do acionista, do contribuinte, do consumidor, do americano comum – e até da mídia leviana? Por que os CEOs, finalmente, são apenas vilões abjetos, criminosos de colarinho branco, ladrões de casaca? A reavaliação, aliás, alcançou até o presidente George W. Bush, que no início do mandato gabava-se de ser “um CEO na Casa Branca”.

A vigarice não é só da Enron 

Os novos vigaristas são herdeiros diretos dos escândalos da década de 1980, o primeiro período de ouro da ganância desenfreada. Mas o processo de desmitificação só começou com a Enron, a corporação da área de energia que antes era apontada como exemplo de “modernidade capitalista” – no governo, no mundo dos negócios e na mídia. A suposta modernidade dela resultava, claro, de receitas fradulentas produzidas pela desregulamentação e pela privatização, para as quais se buscara o apoio dos políticos em troca da generosidade duvidosa das contribuições de campanha.

Resultante de uma fusão em 1985 (ah, aquela década!), a Enron foi declarada pela revista Fortune em abril de 2001 como a   entre as 500 maiores corporações do mundo, com receita anual de US$100,8 bilhões. Era ainda a maior patrocinadora da carreira política de George W. Bush. Ganhou, por isso, papel privilegiado na formulação do programa de energia do governo. De repente o país descobriu, perplexo, a realidade sobre as práticas contábeis dela, as parcerias fraudulentas e a lambança generalizada. De nada mais adiantou a Enron ter investido nos políticos (e não só republicanos). Ficou impossível salvá-la.

letter_to_bush_3501Empregados e, em especial, acionistas que nada sabiam sobre a contabilidade “criativa” dos executivos, foram as vítimas maiores da Enron. Muitos ficaram sem emprego, sem as economias da vida inteira e até sem as pensões. Já executivos como o próprio Ken Lay (pessoalmente ligado à família Bush, como mostra a intimidade do bilhete acima, do então governador do Texas), Jeffrey Skilling, Andrew Fastow e mesmo Clifford Baxter, que se matou em meio ao escândalo, faturaram milhões de dólares vendendo ações ilegalmente, às escondidas.

No início de dezembro de 2001 já não era mais possível esconder a extensão dos estragos da Enron. Mas a cobertura da mídia – talvez para não ferir o ex-executivo Bush e seu papel na guerra imaginária, sem prazo e sem fronteiras, contra o terrorismo – ainda foi extremamente discreta, até meados de janeiro de 2002. Só então o país começou a tomar consciência de que aquelas práticas fraudulentas não estavam limitadas à Enron. Eram a norma de muitos executivos nas corporações.

Rota da ganância desenfreada

A generalizada suspeita sobre as corporações e os executivos passou a derrubar as ações em Wall Street. Os novos escândalos, escancarados, contribuiram para ampliar a crise de confiança. Vieram, um atrás do outro, os casos Global Crossing, Adelphia, Tyco International, ImClone, Dynergy, WorldCom, Qwest, Sunbeam, Xerox, etc, junto com mais suspeitas, que não poupavam nem algumas das mais conhecidas – e, antes, respeitadas – corporações do país.

A cada novo escândalo o público ficava sabendo de mais e mais abusos, excessos e fraudes de altos executivos – CEOs acostumados a jatos privados, helicópteros, iates e um inacreditável padrão de gastos, vivendo cercados de acólitos submissos. Como Gary Winnick, da Global Crossing, que tivera infância humilde mas passara a viver em Bel Air, na residência unifamiliar mais cara (US$60 milhões) já adquirida por qualquer pessoa no país.kozlowski

Dennis Kozlowski (foto ao lado), CEO da Tyco, filho de modesto detetive de Nova Jérsey, descobriu a maneira de sonegar impostos comprando milhões de dólares em quadros de artistas célebres, em especial impressionistas. Ele dizia aos jornalistas que pretendia ser o novo Jack Welch – e a Tyco, uma nova GE (leia AQUI a entrevista dele, já cumprindo pena de 25 anos de prisão, ao programa 60 Minutes da CBS). Bernie Ebbers, da WorldCom, prometia derrubar a AT&T e se tornar a maior operadora de telefonia interurbana no país. Os dois se arrebentaram.

A falácia das fusões e aquisições

Em vez de estranhar ou questionar a ganância de cada um e a audácia das fusões e aquisições, a mídia vinha dando a eles amplo espaço, saudando-os como gênios do capitalismo, ao invés de merosescroques determinados a roubar das empresas e dos acionistas. A revista Forbes, por exemplo, tinha enfeitado sua capa com Winnick (a 24 de dezembro de 2001), Kozlowski (16 de outubro de 2000) e Chuck Watson, da Dynergy (19 de abril de 1999). Três vigaristas.

Ao surgirem as primeiras dificuldades, decorrentes das fraudes contábeis e abusos internos, os executivos anunciavam medidas mirabolantes.ebbers_bernard1 Foi o caso de Ebbers (visto na foto, à esquerda, ao sair com a esposa do tribunal, depois da condenação a 25 anos de prisão – saiba mais clicando AQUI). A pretexto de reduzir gastos e salvar a WorldCom, ele imaginou um “plano de sete pontos” pelo qual subordinados de sua total confiança ficariam encarregados de cortar gastos – não os dele, mas o consumo pelos empregados de chá, café e outras migalhas – ou seja, tornando pessoas humildes suspeitas da ladroagem dos chefões.

Os escândalos de Wall Street escancaram, mesmo assim, que os ladrões eram os próprios executivos do escalão mais alto, beneficiários de esquemas que se generalizaram. Como determinados resultados lhes dariam ganhos na forma de bônus e opções de ações, eles os falsificavam. Na ânsia de embolsarem os ganhos, recorriam à “criatividade” contábil (fraudes para fabricar resultados fictícios). E depois, ante a iminência do escândalo, ainda vendiam suas ações às pressas, violando a lei.

Published in: on novembro 22, 2008 at 5:00 pm  Deixe um comentário  

O Natal dos executivos ladrões, há dois anos

ken_layEste anúncio ao lado é uma paródia. Mas Ken Lay e sua Enron são imagens emblemáticas dos escândalos de Wall Street. A desproporção entre o que faturam executivos corporativos, em especial de corretoras e bancos de investimento de Wall Street, e o que ganham os empregados nunca fora tão grande como naquele Natal de 2006, quando ele ainda estava vivo.

O detalhe escabroso era que de repente os executivos passaram a roubar mais. Precisamente por causa das manchetes de 2001-2002, sobre os escândalos deles, tomaram consciência de que podiam ser apanhados e pegar cadeia. Registrei o fato dia 28 de dezembro, há dois anos, em minha coluna da Tribuna da Imprensa devido a uma reportagem de três dias antes no New York Times (leia o original na íntegra AQUI).

Alguns notórios executivos-ladrões estavam cumprindo pena, como Ken Lay e Jeffrey Skilling, ex-presidentes da Enron (um morreu antes, no início da pena, o outro ainda está preso), Bernie Ebbers da WorldCom, Dennis Kozlowski da Tyco e alguns outros. Fraudes em corporações gigantes como Arthur Andersen, Tyco, Global Crossing, Adelphia, Halliburton, Qwest, Xerox e outras também tiveram conseqüências.

harvey_pitt1Mas era sabido que muitos se safaram, impunes. Entre as corretoras e bancos de investimento de Wall Street, um punhado enfrentou investigações, mas não dos organismos federais que deviam fazê-lo. Isso porque o governo Bush escolhera “raposas para cuidar do galinheiro”, como Harvey Pittt (foto à esquerda), advogado de defesa de alguns dos acusados dos escândalos da década de 1980, quando Ivan Boesky, mago das fusões e informação privilegiada (inside information), obteve redução da pena entregando outros, entre eles, Michael Milken, o rei das junk bonds.

Quem acabou fazendo o trabalho foi o então Procurador Geraleliot_spitzer de Nova York, Eliot Spitzer. Ele reuniu provas contundentes e obrigou grandes bancos e suas corretoras a pagar cerca de US$1,5 bilhão em multas e compensações pela ladroagem. Os executivos pilhados eram um quem-é-quem de Wall Street, à frente de bancos notórios: Bear Stearns, Credit Suisse First Boston, Deutsche Bank, Goldman Sachs, J. P. Morgan Chase, Lehman Brothers, Merrill Lynch, Morgan Stanley, Salomon Smith Barney (Citigroup), UBS Warburg. (Clique AQUI para ver ainda relação sintética dos escândalos corporativos, publicada pela edição online da revista Forbes, cobrindo o período entre o colapso da Enron em 2001 e setembro de 2002). 

Um ano de trabalho, US$ 54 milhões

Spitzer elegeu-se governador de Nova York em 2006 graças em parte à ação vigorosa contra os “colarinho-branco” da elite financeira – e acabaria por renunciar, devido a escândalo com prostitutas de luxo. Não por acaso, eram as mesmas corporações que escandalizaram o país (e o mundo) às vésperas daquele Natal de 2006 com as informações sobre bônus de fim de ano de executivos – entre eles, à frente do pelotão, o presidente e CEO da Goldman Sachs, Lloyd C. Blankfein, que se dera de presente nada menos de US$ 53,4 milhões, perfazendo (com o salário anual de US$ 600 mil) nada menos de US$ 54 milhões por um ano de trabalho.

No final do ano anterior Blankfein já se dera US$ 38 milhões. Claro que se pretende ter sido decisão “soberana” do “Comitê de Compensação”, mas a gente envolvida em tais tramóias sabe bem o que significa. O CEO manobra e, com o poder que tem, arranca o que quer e como quer, até porque outros tantos milhões de dólares são distribuídos a mais alguns cúmplices.

Vi na época uma explicação no programa de economia de Neil Cavuto, que se orgulha, na notória rede Fox News, de ser tendencioso – como o falecido Henry Luce, criador da revista Time – a favor de Deus, do capitalismo e do Partido Republicano (não necessariamente nessa ordem). Daquela vez Cavuto nem parecia muito faccioso a favor dos negócios. Botou a boca no trombone: disse que ao embolsar a grana aqueles executivos impediam que ela chegasse a acionistas e investidores, aos quais pertencia.

grasso_dickSpitzer conseguiu atropelar também um personagem emblemático – o próprio presidente da Bolsa de Nova York (NYSE – New York Stock Exchange), Dick Grasso, cujo contrato era um escândalo. Adotando a mesma linha dos altos executivos, ele tentava receber mais US$48 milhões, além dos US$140 millhões que já tinha abiscoitado. O caso na Justiça começou em 2004 e só terminou em 2008, pois Grasso respondeu com outro processo. Como manipulava o Conselho de Administração, cujos membros escolhera, saiu-se bem no final, mas também acabou exposto publicamente, inclusive num livro, King of the Club – Dick Grasso and the Survival of the New York Stock Exchange, de Charles Gasparino (veja a capa acima). 

Ferrari de US$ 250 mil: em falta

Os executivos deviam servir aos clientes, mas fazem o contrário – tiram dos que confiaram neles e botam no próprio bolso. Spitzer descobriu memorandos internos mostrando o desprezo daqueles ladrões de colarinho branco pelas pessoas que cometeram a temeridade de confiar neles. Os clientes são ridicularizados. E o combustível em Wall Street, como todo mundo sabe, é a cocaína. No fundo diferem pouco dos assaltantes de banco.

Assim, quando é maior o lucro de bancos e corretoras os executivos se apressam a botar a mão da mufunfa. Em 2006 o ranking foi assim: 1. Goldman Sachs; 2. Morgan Stanley; 3. Blackstone Group; 4. Lehman Brothers; 5. JP Morgan; 6. Citigroup Investment; 7. Merrill Lynch; 8. Lazard; 9. Credit Suisse; 10. JP Morgan Chase; 11. UBS; 12. Citigroup; 13. Deutsche Bank; 14. Bear Stearns. Já se sabia do subprime, o país estava preocupado, mas eles não hesitaram em enfiar a mão assim mesmo.

Basta ler as listas para notar a presença de alguns dos bancos que ruiram em 2008. Atendo-se apenas aos fatos, sem emitir opinião ou fazer crítica, o New York Times publicou em 2006 – apropriadamente, no dia de Natal – a sugestiva reportagem sobre o caso dos bônus dos executivos. O título foi: “Tanto dinheiro e tão poucas Ferraris”. Explicava que não houve Ferrari 599 GTB Fiorano (US$ 250 mil cada) em número suficiente na revendedora de Greenwich (Connecticut) para atender às encomendas dos executivos de Wall Street.

Apartamentos de US$ 20 milhões

O jornal contou ainda que uma aeromoça vendia, em frente à sede da Goldman Sachs, vôo fretado (a US$ 30 mil). “É como se fosse seu jato particular”, explicou a um executivo que se mostrava interessado. Ao mesmo tempo, um corretor de imóveis, de olho na gorda comissão, lamentava não ter conseguido encontrar em Manhattan duas propriedades de US$ 20 milhões encomendadas por altos executivos.

Explicação do jornal: financistas já instalados em multimilionários apartamentos e town houses, estão agora comprando apartamentos de US$ 5 milhões para os filhos. E mais: casas de férias, em geral compradas e vendidas na primavera, são muito procuradas em pleno inverno, inclusive em resorts privados (como o Yellowstone Club, perto do Parque Nacional de Yellowstone em Montana).

Nas três semanas anteriores àquele Natal, segundo o Times, uma imobiliária vendera seus quatro últimos apartamentos em Greenwich Village. A venda final fora um de dois quartos e dois banheiros, com uns 200 metros quadrados. Preço: US$ 7 milhões. Uma agente imobiliária contou: os executivos queriam consumar a compra imediatamente, com medo de aparecer outro executivo dando mais dinheiro.

Qualquer um que leia hoje o texto do Times de dois anos atrás entende tudo: os ladrões de Wall Street se apropriavam do que fosse possível. Sabiam que a lambança deles ia estourar a qualquer momento – como de fato aconteceu neste ano de 2008.

(Veja abaixo o gráfico publicado pelo Times ilustrando a reportagem do Natal de 2006. É verdade que uns poucos executivos, como Lay, acabaram na prisão. Mas os outros, que criaram a lambança para o mundo inteiro, depois ainda se deram ao luxo de curtir suas Ferraris, vôos fretados, propriedades de luxo, apartamentos US$7 milhões, etc.)

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Published in: on novembro 18, 2008 at 4:41 pm  Deixe um comentário  

Inspirado em FDR, para corrigir o New Deal

obama_fdr2Esta caricatura de Barack Obama – piteira, óculos e sorriso de Roosevelt – pode ter inspirado a pergunta “Franklin Delano Obama?”, título de uma coluna de Paul Krugman sobre um novo New Deal. Desenhada por Richard Thompson, era uma das “visões de Obama” depois da vitória, apresentadas pela revista The New Yorker, que no calor da campanha o tinha retratado na capa como muçulmano ao lado da “guerrilheira” Michelle (confira abaixo, à direita).

Quanto a Krugman, Nobel de economia além de colunista do New York Times, tinha mais uma pergunta: “Até que ponto a era FDR, de Roosevelt, é mesmo capaz de servir de orientação no mundo atual?” Ele acha isso possível, desde que Obama aprenda tanto pelos fracassos como pelos sucessos. Pois o New Deal, diz, não foi tão bem sucedido a curto prazo como o foi a longo prazo.

“A razão para os êxitos limitados a curto prazo, que quase anularam o programa como um todo, foi o fato de terem sido suas políticas econômicas excessivamente cautelosas”, escreveu o colunista. E sobre as conquistas a longo prazo? “As instituições que FDR criou mostraram-se tanto duráveis como essenciais. E elas permaneceram como alicerce de nossa estabilidade econômica”. (Para ler a coluna na íntegra clique AQUI).

Deturpação deliberada à direitaOBAMA NEW YORKER

Krugman pediu ao leitor para imaginar como seria pior a crise financeira se o New Deal não tivesse garantido a maioria dos depósitos bancários. E ainda para imaginar como os americanos mais idosos se sentiriam agora se os republicanos tivessem conseguido, quando tentaram, desmantelar o Social Security (seguridade social)”, uma herança de FDR.

Os progressistas esperam hoje, assinalou, que o governo Obama, como o New Deal, responda à atual crise econômica e financeira criando instituições, em especial um sistema universal de assistência à saúde que altere o contorno da sociedade americana para as futuras gerações. Mas o governo não deve copiar um aspecto menos exitoso do New Deal: sua resposta inadequada à própria Grande Depressão.

Existe hoje, para Krugman, toda uma indústria intelectual, operando em especial a partir de think tanks (institutos de reflexão política) de extrema direita dedicados a propagar a idéia de que FDR na verdade tornou a Depressão pior. É importante, acha ele, saber que a maioria do que se ouve nessa linha baseia-se em deturpação deliberada dos fatos: o New Deal socorreu, sim, a maioria dos americanos.

O erro maior que tem de ser evitado

Nos dois mandatos iniciais, diz Krugman, FDR não buscou construir a plena recuperação econômica – falha frequentemente citada como prova contra a economia keynesiana, para a qual mais gastos públicos empurram uma economia estagnada. Mas o estudo definitivo da política fiscal do período, do economista (M.I.T) E. Cary Brown, concluiu outra coisa: o estímulo fiscal deixou de ser bem sucedido não por não ter funcionado, mas por não ter sido tentado.

E os milhões de americanos que trabalharam graças ao WPA, CCC e outras siglas do New Deal? Construção de estradas, escolas e outras obras públicas não equivalem a grande estímulo fiscal? Não tão grande como possa parecer, responde Krugman. O efeito dos gastos foram neutralizados por outros fatores, como o efeito do aumento de impostos herdado do governo Herbert Hoover.

Além de relutante em ampliar a expansão fiscal, FDR estava ansioso para voltar aos princípios orçamentários conservadores – o que quase desfez seu legado. Após a vitória esmagadora de 1936, o governo cortou gastos e aumentou impostos, precipitando uma recaída econômica que levou a taxa de desemprego de volta aos dois dígitos, causando sua grande derrota na eleição parlamentar de 1938.

O que salvou a economia e o New Deal, para Krugman, foi o enorme projeto de obras públicas  conhecido como II Guerra Mundial, que finalmente forneceu um estímulo fiscal adequado às necessidades econômicas. Essa história, assim, traz lições importantes para o governo Obama, a ser iniciado a 20 de janeiro.

Esperança sim. E audácia também

obama_tombachtellA primeira lição é de que passos errados na economia podem subverter rapidamente um mandato eleitoral. Os democratas acabam de ter uma grande vitória, mas em 1936 ela tinha sido ainda maior – e seus ganhos evaporaram depois da recessão de 1937-38. Os americanos não esperam resultados econômicos instantâneos do próximo governo, mas esperam resultados. A euforia dos democratas terá vida curta se eles não produzirem uma recuperação econômica.

A lição econômica é a importância de fazer o suficiente. FDR acreditou estar sendo prudente ao controlar seus planos de gastos; na verdade, estava pondo em risco a economia e seu próprio legado. “Eis o meu conselho à gente de Obama” – escreveu Krugman. “Calculem bem a ajuda que acham necessária à economia. E depois, acrescentem 50%.”

O colunista e economista prêmio Nobel está convencido de que é muito melhor, numa economia deprimida, errar para mais estímulos do que para menos. E a chance de Obama (à esquerda, desenho de Tom Bachtell) liderar um novo New Deal, segundo Krugman, dependerá em grande parte de serem suficientemente vigorosos os planos econômicos a curto prazo. “Os progressistas esperam apenas que ele tenha a audácia necessária”, concluiu.

Resta, enfim, registrar abaixo a esperança com mais “visões de Obama” – do projeto pos-eleitoral de The New Yorker. Começando pela ilustração de John Ritter, sobre trabalhos de James Rosenquist, Steve Schapiro (AP), Bruce Davidson (Magnum), Eve Arnold (Magnum) e Platon.

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Prevalecendo sobre os adversários Hillary Clinton, George W. Bush e John McCain – ilustração de John Cuneo

 

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Na Capela Sixtina, aprés Michelangelo, com o gesto que na campanha foi chamado de terrorista.

 

 

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Revivendo o gótico de Grant Wood, à esquerda, o oeste americano na década da depressão – ilustração de Barry Blit 

 

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Também na visão de Barry Blitt, abaixo, à direita, a jogada política digna do baseball de Jackie Robinson, primeiro negro a penetrar num espaço então exclusivo dos brancos 


Published in: on novembro 15, 2008 at 2:56 pm  Comments (1)  

A Casa Branca que os escravos construiram

Lembram-se do pedreiro Waldemar, que construia edifíciosamy_goodman1 nos quais não podia entrar? Eu me lembrei dele ao ler um artigo da jornalista Amy Goodman (foto), responsável nos EUA por um tipo diferente de jornalismo alternativo. Hoje ela tem um programa diário de rádio e TV, “Democracy Now!” (saiba mais e veja o programa pela Internet AQUI), ostensivamene de esquerda, com pouco ou nada a ver com a rotina dos espaços jornalísticos áudio-visuais.

Entrevistados ouvidos por ela nesse programa só raramente – ou quase nunca – são convidados também pelas grandes redes abertas de TV ou mesmo pelos canais de cabo totalmente dedicados ao jornalismo. É o caso de Noam Chomsky e outros como ele. Mas Goodman os entrevista com frequência, sempre que se torna relevante ouví-los sobre alguma questão.

Apresenta reportagens, entrevistas e notícias que só aparecem ali. No dia da visita do presidente eleito Barack Obama à Casa Branca, uma residência thecolorpurpleconstruída pelos escravos, ela falou com Alice Walker, autora de A Cor Púrpura (veja ao lado a capa da edição americana), um livro que lhe deu o prêmio Pulitzer. “Escravos a construiram, acorrentados, em desespero, tristes. E era para ele (Obama). (…) Um dia isso tinha de acontecer”, disse Walker (saiba mais sobre o livro e a autora AQUI).

Uma diferença para o país

Daí a lembrança do nosso “Pedreiro Waldemar”, o sucesso musical de Wilson Batista e Roberto Martins, gravado por Blecaute em 1949 (conheça a letra AQUI). Os escravos podiam não sonhar que a Casa Branca que construiam seria um dia a residência de Obama, sua mulher Michelle e as filhas Sasha e Malia. E que o chefe da família, hoje presidente eleito, ainda levará para as crianças um cachorrinho – “mestiço como eu”, conforme ele explicou.

Filho de pai queniano com uma branca do Kansas, no coração dos EUA, Obama não é descendente de escravos. Mas Michelle – como as filhas – veio de uma família de escravos da Carolina do Sul. O avô da futura primeira dama foi um dos que sairam do sul à procura de vida melhor no norte – mais especificamente, Chicago, no estado de Illinois.

“É espantosa a diferença para o nosso país”, explicou a Goodman a professora Melissa Harris-Lacewell, que ensina política e assuntos afro-americanos na Universidade de Princeton (leia a íntegra do artigo de Goodman AQUI). “Duas crianças negras vão crescer no número 1600 da avenida Pensilvânia. Não será o fim da desiguldade racial. Não significa que tudo melhora para as do lado sul de Chicago, do Harlem, ou as latinas. Mas significa que algo é possível aqui”.

whitehouse_hoban1O peso do trabalho escravo

A construção da Casa Branca (ao lado, um de seus projetos originais) começou em 1792, com o arenito extraído por escravos em Aquia, na Virgínia, transportado pelo rio Potomac e, depois, levado por escravos até o local da obra. A Associação Histórica da Casa Branca relaciona nomes de alguns: “Tom, Peter, Ben, Harry e Daniel, três de propriedade do arquiteto responsável, James Hoban”.

Havia cortadores de pedras e serralheiros nas folhas de pagamento do governo. Nomes como “Jerry”, “Jess”, “Charles”, “Len”, “Dick”, “Bill” e “Jim” eram certamente de escravos alugados por seus senhores. Randall Robinson, autor de The Debt – What America Owes to Blacks (A Dívida – o que a América deve aos negros), também citado por Goodman, refere-se ao trabalho escravo na construção do Capitólio (veja a capa do livro abaixo, à direita – e saiba mais sobre ele AQUI).

debttheO relato de Robinson sugere muita semelhança com as tarefas da Casa Branca. Conforme a explicação dele, o trabalho mais pesado e perigoso ficava sempre para os escravos, desde o início, dentro e fora da escavação, nas fundações, e na edificação posterior. De qualquer forma, é ainda sintomática a participação de trabalhadores imigrantes – e o fato de ter sido o projeto original muito alterado nos anos seguintes.

Uma penada contra a tortura

Com apoio na própria história da construção da residência presidencial e da participação de escravos, Goodman cita o esforço atual de grupos de direitos humanos para que sejam fechados o campo de prisioneiros criado pelo governo Bush em Guatanamo, território cubano sob ocupação, e ainda os black sites da CIA pelo mundo, onde a prática da tortura é comum.

Ela lembrou que quando o abolicionista Frederick Douglass era jovem, foi escravizado numa plantação do litoral leste de Maryland chamado Mount Misery (Monte da Miséria) – propriedade de Edward Covey, celebrizado como especialista em “dobrar” os escravos rebeldes mediante tortura física e psicológica, para torná-los dóceis e submissos.

dn_logoA mesma propriedade pertence atualmente a um ex-secretário da Defesa de Bush, Donald Rumsfeld, um dos arquitetos do programa executado nos campos de prisioneiros dos EUA pelo mundo, onde ainda se tortura. Para a jornalista, com uma penada Obama poderia proibir a tortura, revogando os pareceres dúbios do governo Bush. Seria um tributo àqueles escravos que construiram a Casa Branca e o Capitólio.

(Clique na imagem abaixo para ver e ouvir entrevista da Amy Goodman à CNN, no dia da visita de Obama à Casa Branca, quando falou dos temas tratados neste post)
Published in: on novembro 14, 2008 at 11:10 pm  Deixe um comentário  

Bush, o racismo e um tabu na mídia

n_wordEm 2001 a escritora Diane McWhorter ganhou o prêmio Pulitzer por um livro extraordinário que radiografou a intolerância, o racismo e a brutalidade em sua cidade sulista de Birmingham, Alabama, nos dias conturbados da revolução dos direitos civis. No final de 2006, ela ousou levantar, na revista eletrônica Slate, uma questão que virou tabu nos grandes veículos da mídia corporativa dos EUA (leia a íntegra AQUI).

Tentando entender a situação, McWhorter desenterrou uma entrevista dada por Eleanor Roosevelt em maio de 1940, quando a Wehrmacht alemã estava arrasando a França. Na entrevista, que sequer chegara a ser publicada, a então primeira dama manifestou indignação pelo “grande número de americanos” que aprovavam a vitória de Hitler na Europa e até confessavam muita atração pelo fascismo.

Por que? “Simplesmente porque somos um povo que tende a admirar coisas que funcionam”, lamentara a sra. Roosevelt. A partir daí McWhorter sugeriu que na eleição americana daquele ano de 2006 talvez os americanos que deram a vitória à oposição democrata não estivessem de fato protestando contra as políticas de Bush: só se queixavam de que as políticas dele não tinham funcionado.

Encarando a fantasia bushista

Whorter pergunta: se a invasão (e ocupação) do Iraque não tivesse sido o desastre que foi, até quando o público ainda ia tolerar as políticas que acompanham a “guerra ao terror” de Bush – legalização da tortura, suspensão do habeas corpus, espionagem interna de cidadãos comuns, exercício unilateral do Poder Executivo e a prerrogativa proclamada pela equipe de Bush de “criar nossa própria realidade”?

Apesar do exemplo da sra. Roosevelt, discussões polidas do tema nunca incluem alguma palavra derivada de fascismo, propaganda ou ditadura – muito menos nazismo ou Hitler. É tão proibido falar em Alemanha nazista, disse McWhorter, que a colunista Maureen Dowd, do New York Times (leia AQUI),  fez uma piada. Propôs que se cole o seguinte lembrete nos microfones usados por políticos: “nada de comparação com nazistas”.

mcwhorterPara McWhorter (veja à esquerda a capa de Carry Me Home, o livro que deu o prêmio a ela), já era hora de dizer as coisas como elas são. Mostrar que o governo Bush adota práticas torpes de propaganda (sem reconhecê-lo) a fim de esconder verdades – com “jornalistas” de aluguel, seus próprios canais de “notícias” (veículos como a Fox News), encenações centralizadas no que chama de “presidente em guerra”, além de rotular heróis de verdade de “antipatriotas”.

E nesse quadro não se fazem comparações com o nazismo. O próprio tabu, diz McWhorter, é preceito do estado da propaganda. Os que o impoem professam um motivo politicamente correto – o caráter excepcional do genocídio dos judeus. Sob pressão republicana, o senador democrata Dick Durbin foi praticamente forçado a pedir desculpas à organização Anti-Defamation League por ter invocado a Alemanha nazista ao descrever as condições de Guantánamo.

O processo insidioso, lá e cá

Afirma McWhorter: “Ao permitir que o tema seja definido pelo sofrimento único dos judeus, nós ignoramos a característica mais universal do holocausto: o fato de ter sido perpetrado por pessoas comuns. A relevância do III Reich para a América de hoje não é que Bush seja igual a Hitler ou que o governo dos EUA seja uma máquina de matar. É ser exemplo espetacular do processo insidioso pelo qual pessoas decentes passam a encarar o impensável como não apenas pensável, mas viável, e até justificável”.

Nos EUA, segundo a escritora, a própriakershaw_hitler_bio1 palavra fascismo andou beirando a piada, pelo uso vago e o significado elástico na década de 1960, quando podia ser qualquer coisa de que não se gostava. Devido ao livro que estava escrevendo, McWhorter tinha lido a biografia que Ian Kershaw fez de Hitler (veja a capa à direita); a explicação de Richard Rubinstein para o holocausto (The Cunning of History – abaixo, à esquerda); e outros estudos sobre o III Reich.

cunning_of_history“O choque de reconhecimento mais literal foi a arrogância repulsivamente cruel do termo ‘shock and awe’ (choque e horror, como os EUA batizaram o ataque inicial a Bagdá). Pretendia-se que o povo do Iraque se extasiasse com nossas bombas antes de ser incinerado/liberado por elas? Ataques aéreos como propaganda foram invenção da Luftwaffe alemã, cuja obra maior foi a Blitz da Inglaterra com as bombas-terror, que tão pouco levaram os ingleses à submissão pelo horror”.

Datas infames na História

Depois houve reverberações mais sutis no Iraque. McWhorter na ocasião lia o jurista alemão Carl Schmitt, que tornava princípios hitleristas códigos jurídicos (alguns comparáveis às táticas políticas que vieram de Karl Rove, alto assessor de Bush). Ela encontrou ali, entre outras coisas, o tipo de “não pessoa” agora também existente nos EUA – o chamado “combatente inimigo”. Schmitt, mesmo tendo sido um filósofo fascista, ligado a Leo Strauss (inspirador dos neocons de Bush), também fascinou esquerdistas, conforme análise recente de Alan Wolfe (leia AQUI).

O “combatente inimigo” foi definido juridicamente pelo governo Bush de forma a sugerir paralelo com o artifício nazista que “legalizou” o tratamento dado aos judeus – simplesmente considerados “sem estado”. Já o Ato de Capacitação de 1933 (que na prática dissolveu o Reichstag e consolidou Hitler) aproxima-se da “opção nuclear” invocada pelo bloco bushista no Senado para derrotar a obstrução oposicionista.

Esse ensaio fascista republicano, com o propósito de forçar a oposição a engolir juízes indicados por Bush, levou na época o senador Robert Byrd (foto) a expor a semelhança com a lei de Hitler.byrd A dos nazistas, rebatizada de “Lei para Remediar o Sofrimento do Povo e do Reich”, inspirou mais uma, aprovada logo após o 11/9, para ampliar os poderes do Executivo (como fora feito na Alemanha em 1933).

Bush ficou com autoridade para considerar qualquer um “combatente inimigo”, anular habeas corpus e prender estrangeiros indefinidamente. O jurista Jonathan Turley, professor de Direito Constitucional na Universidade George Washington, considerou aquela uma data infame na história do país. Apesar disso, na época a decisão foi recebida com indiferença pelos americanos.

Published in: on novembro 13, 2008 at 6:54 pm  Deixe um comentário  

Geórgia, outra mentira da dupla Bush-Cheney

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Num post de agosto reproduzi neste blog a advertência indignada do ex-presidente Mikhail Gorbachev contra a versão fantasiosa dos patos mancos George W. Bush e Dick Cheney, em apoio ao títere deles, Mikhail Saakashvili (confira AQUI). Segundo a declaração de Gorbachev à rede CNN, não houve a apregoada invasão russa da Geórgia e sim “um assalto bárbaro perpetrado pela Geórgia na Ossétia do Sul”. “Quem começou isso foi a Geórgia”, enfatizou ele.

Logo no início de setembro, no entanto, Cheney viajou a Tbilisi para abençoar Saakashvili (veja os dois na foto acima e leia AQUI o que o vice americano falou). E nos EUA nem os críticos do governo pato-manco e nem mesmo o então candidato presidencial democrata Barack Obama deram maior atenção a Gorbachev – aquele que, no passado recente, encantara Ronald Reagan e tornara-se herói americano por desmantelar o império soviético. Agora, dois correspondentes do New York Times reconheceram: era verdade. Ou seja, a dupla Bush-Cheney tinha mentido de novo.

A reportagem saiu quinta-feira da semana passada, dois dias depois da eleição vencida por Obama. No Times, os correspondentes C. J. Chivers e Ellen Barry escreveram que novos relatos de observadores militares independentes sobre o início da guerra entre a Georgia e a Rússia questionavam a alegação de Saakashvili, protegido dos EUA, segundo a qual “agira para se defender de agressão russa separatista”.

A versão que Bush abraçou

Ao contrário disso, afirmou o jornal, os relatos sugerem que os militares da Georgia “atacaram a isolada capital separatista de Tskhinvali no dia 7 de agosto com fogo indiscriminado de artilharia e foguetes, ameaçando as vidas de civis,  soldados da tropa russa de manutenção da paz e monitores desarmados”. Ficou clara a mentira de que a Georgia tinha atuado militarmente contra uma invasão e para restabelecer a ordem (leia a reportagem na íntegra AQUI).

putin_bushOs novos relatos independentes, assim, confirmaram o que fora afirmado também pelo primeiro-ministro russo Vladimir Putin (na foto ao lado ele ainda estava de namoro com Bush). Ainda que não haja razões especiais para se morrer de amores por tal personagem, a verdade é que nesse episódio ele foi demonizado injustamente pelos EUA – e o conjunto da mídia dos EUA – a partir das palavras enganosas do dirigente georgiano. O ex-secretário assistente do Tesouro (no governo Reagan) Paul Craig Roberts, por exemplo, não se conteve. Horrorizou-se com a “dupla de bobalhões” (expressão dele) e escreveu: “Presidente Bush, por favor, cale a boca” (leia AQUI).

Em relação à dupla Bush-Cheney, tal leviandade na política externa não chega a ser novidade. Mas vale a pena lembrar ainda, como fez no website Truthdig.com o veterano jornalista Robert Scheer, ex-colunista do Los Angeles Times, que na época também o candidato republicano John McCain, que tinha como conselheiros lobistas altamente remunerados pelo governo da Geórgia, estava especialmente ansioso para botar lenha na fogueira contra os russos (leia a íntegra do artigo AQUI).

Nostálgicos da guerra fria ameaçam

Segundo Scheer (foto),scheer2 a Casa Branca já sabia então – e escondeu deliberadamente do público – certos fatos sobre a provocação feita pelas forças da Geórgia, treinadas pelos EUA. Elas mataram civis na capital da Ossétia do Sul a pretexto de que estava havendo uma “invasão russa”. Só que o tal ataque ocorrera muito antes de terem as tropas russas atravessado a fronteira, conforme advertira Gorbachev na CNN.

A provocação da Geórgia foi documentada ainda pela BBC, a rede britânica de televisão, através de uma reportagem de investigação, e ainda por um consenso crescente de fontes consideradas confiáveis. O pior, claro, é toda aquela mentirada ter sido bancada cinicamente pela dupla Bush-Cheney – patos mancos que continuam no poder e antes de 20 de janeiro ainda poderão encenar mais espetáculos irresponsáveis.

Como qualquer pessoa minimamente sensata, Robert Scheer manifestou ao mesmo tempo sua preocupação com a facção nos EUA de nostálgicos da guerra fria – já que são muitos os que sonham com uma volta breve àquele tempo do confronto com os russos. O senador Obama certamente podia ter sido mais cauteloso antes de alinhar sua posição, quase automaticamente, à do governo Bush, mas agora será saúdavel uma reavaliação, se não antes, pelo menos depois da posse.

E o que fazer com a Colômbia?

Está bem claro que a tal agressão russa foi mera fantasia bushista – a Rússia não atacou sem ter havido provocação antes, ao contrário do que se dissera. A equipe do presidente eleito dos EUA tem plena consciência hoje, também, de que a postura belicista unilateral do governo Bush-Cheney não é menos ofensiva do que se pensava – pode ser até pior. E o mundo inteiro, que contava com a mudança em Washington, vai preferir que escorregões assim não prevaleçam na nova política externa.

uribe_riceNesse quadro de final de governo, há mais riscos. A mídia sugeriu, esta semana, que na visita a Bush, o presidente eleito Obama defendeu nova ajuda à indústria automobilística (GM, Ford), que já obteve algumas dezenas de bilhões. E que Bush teria condicionado tal iniciativa, antes da posse, ao apoio dos democratas, majoritários no Congresso, ao acordo de livre comércio com a Colômbia. Desmentiu-se apenas o quid-pro-quo, não que se tenha falado das duas questões.

A América Latina está ansiosa para saber mais sobre a chance de ser votado o acordo comercial, parte do sonho uribista de virar Israel no continente. Os EUA continuarão a patrocinar o colombiano Alvaro Uribe (na foto acima, com Condoleezza Rice), a um custo superior a US$1 bilhão por ano, de olho no petróleo da Venezuela e em provocações à Bolívia, Equador e outros vizinhos? Interessa em especial ao Brasil saber mais, já que Uribe conta com essa nova bênção de Bush para a aposta num terceiro mandato.

Published in: on novembro 12, 2008 at 7:05 pm  Comments (1)  
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