Alguns analistas nos EUA estranharam a escolha de Sarah Palin, a jovem governadora do Alasca, para vice da chapa republicana, porque vai privar o senador John McCain de seu principal argumento atual contra o rival Barack Obama – de que é inexperiente para o cargo. Ela tem 44 anos, foi prefeita de uma pequena cidade e governa, há apenas dois anos, um estado de 683 mil habitantes (2,5 por km2).
McCain pode estar vendo Sarah Palin, em primeiro lugar, como a mulher atraente e capaz de trazer para a chapa presidencial republicana os votos que iriam para Hillary Clinton. Um comercial dele, anterior, entrevistava suposta eleitora ressentida com a preferência de Obama por Joe Biden em detrimento de Hillary, sugerindo que os votos dela vão migrar para a chapa de McCain.
Mas as pesquisas anteriores indicavam que os (ou as) descontentes estavam na casa de 20% dos eleitores de Hillary, assim mesmo naquele primeiro momento. É lícito supor que o show de unidade na convenção democrata, com a conclamação enfática da própria Hillary, reforçada pelo discurso vigoroso do ex-presidente Bill Clinton, tenha reduzido drasticamente a tendência dissidente entre as clintonistas (leia AQUI como o marqueteiro Ed Rollins, que a considera “brilhante”, acredita ter sido a escolha “arriscada”).
O papel da direita religiosa
Ao ser apresentada por McCain, Palin tentou explicitamente atrair as descontentes. Até cortejou a irada democrata Geraldine Ferraro, primeira mulher a se candidatar ao cargo com chance de vitória (em 1984) e a própria Hillary, pelos 18 milhões de votos em 2008. Mas a governadora é o oposto das duas. Sonha revogar a mesma decisão Roe v. Wade (do aborto) vista por elas como a maior conquista da mulher.
A mágica tentada pela campanha republicana parece no mínimo um despropósito: ganhar as seguidoras de Hillary e ao mesmo tempo os fiéis do evangelismo fundamentalista que infesta o meio-oeste e o sul do país. Estes não esquecem a infame primária da Carolina do Sul em 2000, quando Karl Rove recrutou o reverendo Pat Robertson e comparsas para destruir McCain, cujo troco foi execrar o poder da direita religiosa (saiba mais AQUI sobre as acusações de McCain em 2000 à direita religiosa).
Ao optar por Palin como vice, McCain na certa levou em conta que as posições tradicionalistas dela agradam aquele segmento do eleitorado – o mais fiel do agora amigo George W. Bush, que promete ajudá-lo junto aos evangélicos. McCain antes inclinava-se muito mais por Joe Lieberman, que só poderia reforçá-lo no reduto judaico da área metropolitana de Nova York e nos três estados sob sua influência.
Karl Rove contra Lieberman
A resistência a Lieberman, a julgar pelo noticiário da mídia, cresceu nos últimos dias, com a ação subterrânea de Karl Rove, que o teria conclamado a fazer McCain desistir; e do colunista Bob Novak, que já anunciara a aposentadoria, por doença, mas voltou à ativa para publicar artigo sobre os “perigos” associados a tal opção. Lieberman tinha o apoio de neoconservadores como Bill Kristol mas ameaçava subverter a “base” de Bush (direita religiosa).
Repudiado pelo eleitorado democrata de Connecticut, ele se reelegera como independente mas tornara-se herói dos neocons, Kristol à frente, e ainda do milionário lobby israelense. Na direita religiosa – dos seguidores de Robertson e do falecido Jerry Falwell – há notórios anti-semitas, muitos egressos da extremista Universidade Bob Jones (anticatólica e racista), da Carolina do Sul.
McCain conformou-se em desistir de Lieberman – que o ensinara a não confundir sunita com xiita – mas pode ter prometido nomeá-lo para o Pentágono ou o Departamento de Estado no caso de vitória. Seria um prêmio ao senador de Connecticut e ex-candidato a vice na chapa de Al Gore em 2000. Ele fez tanta bobagem que ganhou até beijo de Bush, mas parece agora rejeitado tanto por democratas como por republicanos.
Jovem e singular, como o próprio Obama, Palin pode ter potencial e apelo na campanha. A singularidade, claro, é por ser bonita, nova, mãe de cinco filhos – entre eles um patriota que se alistou a 11 de setembro do ano passado para lutar no Iraque e um bebê com síndrome de Down – e pela trajetória. Passou das reuniões da PTA (associação de pais e mestres) à Câmara Municipal, depois prefeitura e governo do estado.
Aquelas posições polêmicas
Na história dela a vitória inicial foi numa eleição para Miss Wasilla, sua cidade. Não emplacou depois como Miss Alasca, para tentar ser Miss América. Ficou em segundo lugar, celebrada como Miss Simpatia. Depois estudou jornalismo e ciências políticas na Universidade, casou-se com o namorado da escola secundária, chegou a ser repórter de esporte na TV e optou pelos deveres de dona de casa.
Entre eles, orgulha-se da participação como hockey mom - aquelas mães que levam os filhos aos treinos e torcem por eles nos jogos. Em estados “normais”, o esporte é o futebol e elas são soccer moms, mas imagino que no Alasca tudo é diferente. Foi o envolvimento apaixonado numa campanha pela ética, contra figurões do próprio Partido Republicano, que a projetou na política – e a levou ao conselho municipal e à prefeitura.
No desdobramento da campanha presidencial Palin certamente será cobrada pelo pouco apreço pelas causas ambientais e suspeita de aliança com a indústria do petróleo ao defender a causa da perfuração de poços no Alasca – como prega o presidente Bush e seu candidato McCain.
Da mesma forma pode ser chamada a explicar porque não dá a mínima para a sobrevivência dos ursos polares (leia AQUI a biografia dela no New York Times, ilustrada por foto onde aparece sentada num sofá de urso polar) e outros animais, gosta tanto de caçar e pescar e é filiada à NRA (Associação Nacional do Rifle), o poderoso lobby” das armas. (E saiba AQUI porque o blog de Chris Kelly acha que ela é igual a Dick Cheney: “olha a gente nos olhos e diz que preto é branco”).




Gore Vidal maltratou Joe Cantwell (visto como um John Kennedy aventureiro e ambicioso) e exaltou William Russell (um Adlai Stevenson honesto demais para ser político).
. A convenção democrata, na Filadélfia, foi uma das mais conturbadas da história.
O senador Joe Biden era candidato no início das primárias (veja à esquerda seu logo da época). Agora é o vice do ex-adversário Barack Obama (veja à direita o cartaz dos dois juntos).
Consumada a chapa, a Convenção Nacional Democrata começa hoje em Denver, Colorado. Adversários republicanos apostam num desastre de relações públicas, ao invés dos habituais espetáculos roteirizados e coreografados. Confiam num imprevisível desafio dos Clinton, embora menos traumático do que a rebelião de 1968.
Essa já era a suspeita de alguns historiadores da Guerra Fria, mas em 1997 surgiram afinal as provas definitivas: as próprias vozes, gravadas secretamente, dos personagens centrais nos EUA da crise dos mísseis de Cuba, vivida há quase 46 anos. Durante 13 dias e noites, em outubro de 1962, o mundo esteve à beira da catástrofe nuclear – como contou Robert (Bob) Kennedy em seu livro Thirteen Days, ampliado depois e transformado em 2000, graças a mais depoimentos, no docudrama do mesmo título (veja acima a capa do DVD).
Segundo expressão de um analista americano, as fitas cujo conteúdo o livro transcreveu mostram “como o mundo não acabou”. De fato, ali há momentos dignos da ficção de Hollywood. Como o desafio do general LeMay à opção do bloqueio, preferida pelo presidente (saiba mais sobre o general
Em julho passado, quando Tony Snow (veja sua foto ao lado), ex-apresentador da rede Fox News e ex-secretário de imprensa na Casa Branca de Bush, morreu de câncer, os necrológios na mídia evitaram lembrar outro papel histórico dele. Tinha sido também a pessoa que em 1996 apresentara Linda Tripp a Lucianne Goldberg – a dupla que detonou o escândalo Lewinsky, quase responsável pela queda do presidente Bill Clinton (leia 

