O desespero final de Hillary Clinton

Apesar das novas informações de ontem sobre a possibilidade de Barack Obama aceitar Hillary Clinton para vice de sua chapa, a ex-primeira dama e seu marido podem estar indo longe demais e neutralizando a hipótese. Mesmo depois de uma trégua relativa, ela passou ao absurdo de associar a imagem de seu Partido Democrata à do regime de Zimbabwe e à fraude republicana de 2000 na Flórida.

As razões do casal Clinton, no entanto, é que caracterizam fraude. Incapaz de derrotar o adversário nas primárias, “caucuses”, votação popular, número de delegados e número de vitórias nos estados, Hillary agarra-se ao estranho remédio de mudar as regras, com as quais concordara previamente, para validar as votações irregulares de Michigan, onde só o nome dela estava na cédula, e da Flórida.

Os dois estados, punidos pela direção nacional do partido (com o apoio unânime de todos os candidatos) por terem antecipado a data de suas primárias, tornaram-se a derradeira esperança de Hillary. A única aposta dela agora é nessa trampa. Daí ir ao extremo de lançar a lama de Mugabe (Zimbabwe) e Bush (Flórida 2000) para manchar a reputação do próprio partido.

Mudar as regras após a derrota

Os excessos da retórica clintoniana, no entanto, ameaçam pôr fim ao cessar-fogo que ela e Obama vinham observando nas últimas semanas, conforme assinalou o veterano colunista político E. J. Dionne, doWashington Post. Há algum tempo esta coluna tem feito referência à obsessão com que Hillary passou a recorrer a qualquer expediente na ânsia de inverter o resultado depois do jogo – no tapetão.

Dionne espanta-se agora com a teimosia dela em pressionar tanto a comissão de regras do partido como a comissão de credenciais da convenção nacional democrata – a ser realizada apenas no dia 28 de agosto – fingindo ser essa a maior crise para a democracia americana desde a recontagem de votos da Flórida, interrompida por ordem da Suprema Corte do país.

A retórica inflamada de Hillary contrasta com os intensos esforços de membros da comissão de regras para superar os obstáculos ainda existentes. Eles acham possível chegar a acordo razoável sem prejudicar a indicação de Obama. Isso porque o senador não pode ser punido por uma decisão da cúpula nacional do partido – da qual não participou mas com a qual concordou, juntamente com Hillary e os demais candidatos.

Acordo baseado no bom senso

As chances da ex-primeira dama são mínimas, até porque até alguns adeptos dela já consideram a disputa encerrada. O acordo mais provável será dar assento às delegações da Flórida e de Michigan, mas com a metade dos votos. Isso não iria contra as regras do partido. Foi também assim que os republicanos solucionaram problema semelhante em dois estados contestados.

“Se fizermos isso direito, cada um ficará um pouco mais contente, ainda que nenhum consiga tudo o que quer”, disse a Dionne a secretária do partido, Alice Germond, que fará a chamada dos delegados na convenção democrata de Denver, Colorado. Germond também integra a comissão de regras. Ela acha inconcebível o partido não encontrar uma saída para dar assento às delegações dos dois estados.

A vantagem de Obama sobre Hillary em número de “delegados comprometidos” (os escolhidos nas primárias) é de 185. A campanha de Hillary alega que ela reduziria essa diferença em 111 com os dois estados. Isso se os “não comprometidos” continuarem nessa condição. Se eles forem dados a Obama – o correto, já que eram originalmente pró-Obama – o ganho dela seria apenas de 56.

Sem mais coelhos na cartola

A campanha do senador negro reivindica, pela irregularidade da votação, que os delegados sejam divididos igualmente entre os dois candidatos. Aceitaria ainda, provavelmente, um compromisso em torno do meio voto, o que daria vantagem de 17 a Hillary. Mas como ela não tem mais coelhos para tirar da cartola, está determinada a sustentar uma batalha dentro da convenção.

Apesar da pequena trégua após a derrota que selou sua sorte na Carolina do Norte, Hillary tinha feito antes ataques macarthistas – tipo “culpa por associação” – a Obama (invocou tanto os pecados do pastor Jeremiah Wrigh como o ativismo de Bill Ayers, que foi radical há 40 anos). Ela se beneficiou, além disso, com votos republicanos da “Operação Caos” lançada pelo ultraconservador Rush Limbaugh com a intenção declarada de golpear o Partido Democrata.

Dificilmente essa linha da campanha dela, em especial a adesão à “estratégia do medo” de Bush e a ameaça de incendiar a convenção, traz algum benefício ao partido. Daí a esperança de que os próprios seguidores de Hillary na comissão de regras – como previu Dionne – a forcem a aceitar um acordo. Caso insista na batalha da convenção, disse ele, correrá o risco de ser derrotada não pelos inimigos mas pelos próprios amigos.

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Published in: on maio 24, 2008 at 1:51 pm  Deixe um comentário  

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