O Hamas e a hipocrisia de Bush e McCain

Primeiro o candidato republicano John McCain, depois de declaração pública do Hamas de que torcia pelo democrata Barack Obama, abraçou a tática macarthista da “culpa por associação”: sugeriu que isso provava a “fraqueza” do opositor “em segurança nacional para enfrentar organizações terroristas”. Depois foi pior: sem citar Obama nominalmente, o presidente Bush acusou-o de querer negociar com os terroristas.

Mas uma ex-autoridade diplomática – James P. Rubin, que no governo Clinton foi secretário de Estado assistente e porta-voz do Departamento de Estado – expôs no Washington Post a hipocrisia dos republicanos sobre o Hamas. Contou que há dois anos, logo depois da eleição israelense, McCain dissera em entrevista ao próprio Rubin, para a rede européia de televisão Sky News, que os EUA teriam, sim, de negociar com o Hamas.

O mais grave, para Rubin, foi o que fez Bush, pois discursava no Parlamento de Israel (o Knesset). Engajava-se, portanto, em mesquinha política partidária durante viagem a outro país. “Muitos presidentes já disseram coisas no exterior que foram vistas como violação das regras não escritas da política americana. Mas é difícil lembrar um que tenha abusado tanto de seu cargo como Bush acaba de fazer”.

O presidente baixa o nível

Bush acusou seus adversários da política interna – referiu-se “aos democratas”, mas o alvo específico era Obama – de repetirem o inglês Neville Chamberlain, que negociou com Hitler. “Já é suficientemente ruim usar a política de destruição pessoal em casa, mas recorrer a tal arma política em momento solene, ao se dirigir ao Parlamento de um país aliado, é descer a um nível baixo demais”, disse Rubin.

Na entrevista de McCain, Rubin tinha perguntado se achava que os diplomatas dos EUA deviam operar como no passado, trabalhando com o governo palestino, com o Hamas no poder. Resposta de McCain: “Eles são o governo. Teremos, cedo ou tarde, de tratar com eles, de uma maneira ou de outra. Entendo a antipatia pelo Hamas, antes e agora, dada a violência e as coisas que não só apoiam como praticam. Mas há uma nova realidade no Oriente Médio. As pessoas querem segurança e vida decente, futuro decente, querem democracia. O Fatah não trouxe isso para elas”.

Segundo explicou Rubin, “para alguns europeus em Davos, Suiça, onde foi feita a entrevista, a resposta era perfeitamente razoável. Mas era incomum, talvez única, para um político americano, de qualquer partido. Certamente não é assim que responderia hoje um conservador candidato à indicação republicana”, disse.

Ou seria amnésia política?

Rubin observou ainda, no artigo de ontem no Post, que “com base naquela resposta, o novo John McCain podia dizer que o Hamas devia estar torcendo para o velho McCain ganhar a eleição presidencial. O velho John McCain, ao que parece, estava disposto a negociar com o governo liderado pelo Hamas, enquanto tanto Hillary como Obama têm dito que o Hamas terá de mudar suas políticas em relação a Israel e ao terrorismo para ter relações diplomáticas com os EUA”.

A conclusão de Rubin foi de que, “mesmo se McCain há dois anos não estivesse disposto a negociar com o Hamas, atualmente está disposto a difamar Barack Obama. Mas em virtude da posição que expôs então, ou é o cúmulo da hipocrisia ou é um caso de amnésia política McCain injetar o Hamas na eleição americana”.

Há ainda outro detalhe. No artigo Rubin declara-se partidário de Hillary, que afirmou: “Não acho que qualquer pessoa deva levar a declaração (de Bush) a sério”. Infelizmente, acrescentou ele, “alguma pessoas o farão. É por isso que tais coisas são ditas”. Para completar, Michael Goldfarb enviou de Londres um artigo para o site huffingtonpost.com, lembrando: “conversa com terroristas acontece o tempo todo”.

“Chame Peres, ele sabe”

Goldbarb mandou um recado ao presidente dos EUA: “Bem, George, então de que nome você vai chamar seu amigo Tony Blair?” Em seguida, lembrou que Blair passou a maior parte de seus primeiros anos de governo conversando com o Sinn Fein, braço político do IRA (Exército Republicano Irlandês). E antes dele, o antecessor John Major, que teve amigos mortos pelo IRA, fazia a mesma coisa.

Serão também Blair e Major novos Chamberlain, “appeasers” (apaziguadores), como Bush tentou rotular “os democratas” dos EUA? “O planeta está cheio de grupos terroristas. (…) Todos eles têm seus braços políticos, criados especificamente para conduzir o tipo de negociação que o Sinn Fein fez com sucesso. Para resolver os conflitos, é preciso conversar com eles, às vezes secretamente, às vezes pela mídia, às vezes cara a cara.”

Se Bush não sabe disso, escreveu Goldfarb, em Israel eles sabem. “Sr. presidente, chame Shimon Peres e pergunte a ele. Chame qualquer político de alto nível em Israel, do Likud ou do Partido Trabalhista. Pergunte a eles. Passaram décadas repetindo que jamais conversariam com a OLP, mas afinal o fizeram. Algum dia eles vão conversar também com o Hamas”.

Published in: on maio 17, 2008 at 4:59 pm  Deixe um comentário  

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