Réquiem para uma candidata


Chelsea, Bill & Hillary Clinton
De fato, na terça-feira Hillary ganhou uma primária e Obama a outra. Mas havia diferença grande no peso de cada vitória. A dele foi na Carolina do Norte, estado muito mais rico em votos e delegados. E a vantagem de Obama foi de 15 pontos percentuais (56% contra 41%), enquanto a dela em Indiana foi de apenas 2 pontos percentuais (51% contra 49%). Mas ela festejou como grande triunfo, ainda que fosse de constrangimento a aparência do casal Clinton e da filha Chelsea na foto acima da AP, feita depois do resultado. 

A estimativa ontem era de que o resultado de Indiana dá mais 37 delegados a Hillary e mais 33 a ele – uma vantagem de quatro, amplamente superada pela vitória de Obama na Carolina do Norte, que deu a ele mais 61 e a ela mais 38 (os totais precisos ainda serão determinados). Segundo cálculos da AP, ele ainda precisa de 183 para chegar ao número mágico de 2.025, que garante a indicação (veja AQUI o quadro geral do Yahoo sobre a eleição; e AQUI os números do New York Times).

Para Hillary chegar aos 2.025, precisaria de mais 337, o que analistas acham praticamente impossível, em especial depois do desempenho decepcionante de terça-feira. É que os estados restantes – Virgínia Ocidental (dia 13), Kentucky, Oregon (ambos no dia 20), Idaho (27), Porto Rico (1° de junho), Montana e Dakota do Sul (ambos a 3 de junho) – são, todos eles, bem menos ricos em votos e delegados do que Carolina do Norte e Indiana. Alguns chegam a ser indigentes.

Vitória de Obama no N.Y. Times
Sem os braços e uma perna

“Vou continuar nessa disputa até que a indicação esteja definida”, ameaçou Hillary ontem. É mesmo uma ameaça, já que significa desgaste crescente para o partido. Um blogueiro do website HuffingtonPost.com comparou a situação dela a uma cena do ator John Cleese em Monty Python and the Holy Grail (leia o blog AQUI). Como Cavaleiro Negro, com os dois braços e uma perna cortados pelo rei Artur, ele vê o sangue jorrar pelos três ferimentos e diz ao monarca: “Ok, concordamos em que há empate”.

A senadora está sangrando, sem qualquer chance. Mas a tática tem sido a de sempre festejar como se tivesse vencido. Exemplos: a 19 de janeiro comemorou vitória em Nevada, mas no dia seguinte ficou claro que o vitorioso era Obama; a 5 de fevereiro, Super Terça-Feira, festejou Missouri, onde fora derrotada; a 4 de março, reincidiu no Texas, onde Obama acabou como ganhador em número de delegados.

Se ele está com número bem maior de delegados, a maior votação popular (ampliada agora em 200 mil votos, para 16,3 milhões, vantagem de 800 mil) e já ganhou em mais do dobro dos estados, por que Hillary ainda insiste e finge ser a melhor candidata? É que, antes do início da temporada das primárias, arrecadara uma fortuna e obtivera o compromisso de grande número de superdelegados, em razão da máquina montada pelos Clinton nos dois mandatos presidenciais (1993-2001). Mas agora teve de emprestar mais US$6,4 milhões à campanha enquanto sobram doações de pequenos contribuintes para Obama, via Internet.

Com a força acumulada, em dinheiro e superdelegados, Hillary antes julgava-se imbatível no partido. Deu-se ao luxo de ignorou Obama, convencida e que seria John Edwards o adversário principal. Ao invés de adaptar-se à realidade depois da surpreendente vitória de Obama em Iowa, a 3 de janeiro, manteve a postura de favorita. Ao perder na Super Terça-Feira, continuou a apostar nos superdelegados como a força decisiva – até que eles começaram a deixá-la devido às derrotas.

As vitórias apenas encenadas

Os próprios estrategistas dela admitiram que se não ganhasse no Texas, Ohio e Pensilvânia, entre 4 de março e 22 de abril, estaria fora da disputa. Ela perdeu no principal estado, o Texas (pequena vantagem obtida na primária acabou neutralizada pelos caucuses, pois ali a disputa é híbrida), mas declarou-se vencedora e foi aceita como tal pela maioria da mídia (AQUI o Time retratou-a na capa, “The Fighter”).

Na campanha da Pensilvânia, tomou a pior decisão: a de incorporar a receita republicana da difamação macarthista do adversário, com base na “culpa por associação”. Explorando a controvérsia em torno do pastor Jeremiah Wright, abraçou a base do discurso bushista – “política do medo” e contestação do patriotismo do rival, por frequentar igreja cujo ex-pastor é radical, relacionr-se com um vizinho de passado subversivo e não usar bandeirinha na lapela. Assim empurrou Obama para a defensiva e obteve a primeira vitória confortável.

Tanto na Pensilvânia, seu maior sucesso, como agora em Indiana, Hillary ainda foi beneficiária de uma maquinação torpe, a “Operação Caos” lançada pelo talk show do ultraconservador Rush Limbaugh para subverter a disputa dos democratas (veja AQUI a comemoração no site dele). Como a primária é aberta e permite os votos de republicanos, Limbaugh os conclamou a votar em Hillary para criar o caos no Partido Democrata (em Indiana 11% dos votantes foram, de fato, republicanos).

Há muito a conduta da senadora era motivo de preocupação na direção do partido e entre os superdelegados – alguns dos quais, como o governador Bill Richardson, do Novo México, abandonaram o compromisso assumido antes com ela e mudaram o voto para Obama. O problema de Hillary, mesmo depois da Filadélfia, era não ter mais como mudar um quadro já definido. Já tinha perdido o bonde.

Ela cai fora a 15 de junho?

Quanto mais consciência tinha de sua situação desesperadora, mais buscava golpear o rival com os ataques macarthistas (não tivesse sido ela, como o marido, alvo no passado de ataques assim). A intenção era menos ganhar votos dos eleitores do que se impor no grito – ou no tapetão – através dos superdelegados. Assim, Hillary chegou esta semana às primárias da Carolina do Norte e Indiana. Prometia vitória esmagadora em Indiana e uma espécie de empate na Carolina.

Deu o contrário: vitória esmagadora de Obama na Carolina do Norte e uma espécie de empate em Indiana. Para observadores realistas, não há mais mágica capaz de salvá-la. Mas ela insiste no jogo sujo, ao exigir os votos de Michigan (onde só o nome dela estava na cédula) e da Flórida. Nesses dois estados as disputas tinham sido previamente invalidadas, bem antes da votação, por decisão da cúpula do partido, como punição por desafio às regras estabelecidas.

Outro blogueiro democrata, Lawrence O’Donnell, escreveu ontem ter ouvido de um alto dirigente da campanha dela, além de confidente de Hillary, que no dia 15 de junho haverá enfim um candidato indicado (a direção do partido tinha prometido a definição para 3 de junho, no máximo). “Ele não chegou a declarar claramente ‘Hillary cai fora a 15 de junho’, mas foi exatamente isso o que quis dizer”, acrescentou (leia AQUI). Será mesmo o fim? Então por que aquele empréstimo pessoal de US$6,4 milhões?

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Published in: on maio 8, 2008 at 3:02 pm  Deixe um comentário  

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