A súbita paixão de Murdoch por Obama

Certamente eu não tinha o direito de me espantar ontem, quinta-feira, ao ver o principal jornal em rede da Fox News, “Special Report with Brit Hume”, referir-se ao repentino entusiasmo do magnata Rupert Murdoch, dono da News Corp (um dos cinco maiores impérios de mídia do mundo, ao qual pertence a Fox), com o candidato democrata Barack Obama.

Murdoch falou numa entrevista – em tom de conversa, gravada pelo blog “All Things Digital”, do Wall Street Journal, talvez o mais importante dos jornais da News Corp (conheça AQUI o blog e o texto). Mas foi uma declaração de amor contida. O título poderia ser: “Murdoch não apoiou Barack Obama para presidente, mas chegou bem perto”, disse Kara Swisher, do “All Things D”, ao “Tech Ticker” da Yahoo! Finance (clique abaixo para ouvir o próprio Murdoch).

O problema, para mim, foi receber a informação num programa ideológico da Fox News. Murdoch, na verdade, só é ideológico quando convém aos interesses de seu império de mídia. Vale lembrar que há algum tempo removeu prontamente a BBC de Londres do seu Sky News (TV por satélite) tão logo o governo chinês avisou que não iria tolerar as críticas feitas à China pela rede britânica de televisão.

McCain fora de sintonia

Obama foi apenas um dos temas. Murdoch acha que ele tem uma boa chance de ganhar a eleição em novembro. O respeito dos americanos pelos políticos e por Washington, disse ele, está atualmente em seu ponto mais baixo. Quanto a Obama, acha que sua imagem cresceu, é hoje uma espécie de “astro de rock”, “fantástico”. E o republicano John McCain, que parece o queridinho de todos na Fox News?

Para Murdoch, durante a longa carreira no Senado McCain foi forçado a se comprometer demais. Não tem posições firmes, é “imprevisível” e “pouco sabe de economia”. O interesse do entrevistado por economia, aliás, é tão grande que em 2007, além de comprar a Dow Jones (levou junto o Wall Street Journal), lançou a Fox Business para derrubar a CNBC, que operava com a Dow Jones.

Murdoch disse que considera McCain “patriota” e “um sujeito decente (…) que, segundo parece, não sabe muito sobre como organizar uma campanha”. Então vai apoiar Obama? Ao menos por enquanto ainda não apóia ninguém, quer saber mais sobre os planos de Obama e as pessoas que o cercam. E teve influência para o New York Post apoiar Obama na primária do estado? “Tive”, respondeu rindo.

Essa última informação, sobre o Post, corrige algo que escrevi no passado – que o império de Murdoch, em Nova York, apoiara na primária republicana McCain; e, na democrata, Hillary Clinton (cuja campanha para o Senado recebera doação dele em dinheiro – leia AQUI sobre isso). Mas a correção talvez seja apenas parcial, se a Fox News tiver apoiado Hillary, como ainda creio ter sido o caso. (Veja abaixo como o Post anunciou em janeiro seu apoio a Obama)

Um fenômeno de verdade

Murdoch é australiano de nascimento e americano por adoção. Naturalizou-se, pouco antes de comprar a Fox, porque a lei exige que dono de concessão de TV seja cidadão do país. Em compensação, duvido que alguma TV nos EUA consiga ser mais patriota do que a Fox. Bandeirinhas tremulam na tela, misturando-se com o próprio logotipo. Sem falar na bandeirinha que cada apresentador ostenta na lapela.

Até por ter a cabeça muito voltada para a economia e ver recessão no horizonte, o chefão da News está convencido de que será esse um tema em destaque na eleição. O americano médio, diz, “está hoje sendo realmente golpeado financeiramente, o que vai ajudar Obama”. Ao mesmo tempo, Murdoch encara Obama como “um verdadeiro fenômeno neste país. (…) E há um repúdio de 80% aos políticos”.

Um dos entrevistadores fez a pergunta direta – se em dezembro ele pretende  votar em Obama. Murdoch preferiu manter o suspense. Alegou que se inclina para ele, mas só saberá realmente nos próximos seis meses. O perguntador quis saber se mais tarde poderia cobrar a resposta. Ele disse que sim, mas observou: “Provavelmente você vai ter uma idéia antes, lendo o Post“.

O papel de Murdoch e seu império cresceu de tal forma nos últimos anos que sua palavra sobre o futuro do jornalismo passou a ser acompanhada com mais interesse. Ele é pessimista em relação a donos de jornais metropolitanos (imagino que a referência é ao New York Times e outros, não ao Post, um tablóide). E se um dia acordasse dono de um jornal metropolitano? “Sairia correndo”, respondeu.

Artigos para ler, não para prêmios

Antes ele tinha dito que nos últimos cinco ou seis meses a receita publicitária média do jornal caia 10 a 30%. Continua otimista sobre títulos nacionais como o Journal, comprado há pouco, mas acha que os metropolitanos terão de aceitar margens de 10% em vez de 30%. “Alguns vão desaparecer.” E qual a solução? “Publicar artigos que as pessoas ‘querem ler’ e não ‘para ganhar prêmios Pulitzer'”.

Não me parece receita diferente da que sempre o atraiu – crime,  escândalo, sexo e celebridades, ao invés de jornalismo de qualidade. Hoje ele tem ainda, além do lixo, o The Times, em Londres, e o Journal. Assim, acha que os desafios aos jornais metropolitanos serão oportunidades para o Journal. Jornais menores provavelmente vão reduzir o jornalismo, disse. Mas alegou que não tem intenção de fazer o mesmo.

Murdoch estendeu-se a respeito de comentários feitos antes sobre reformular o Journal. Ele acha “ridículo” cada matéria envolver 8,3 editores. Também disse que poderá elevar o preço da assinatura, que hoje é em média US$ 125 por ano (a do Times passa de US$ 500). E a idéia de um dia comprar o Times (de Nova York) e fechá-lo? “Falei uma vez, só de brincadeira. Mas gente do Times, na platéia, ficou em pânico”. (Leia AQUI como o blog “City Room” do Times viu o apoio do Post a Obama e, antes, a Hillary)

Published in: on maio 30, 2008 at 8:47 pm  Comments (2)  

O fracasso de Bush contra Bin Laden

No tempo da guerra fria o Partido Democrata tinha de fazer o diabo para escapar à acusação de que era “mole com o comunismo”. Dissolvida a União Soviética, continuou suspeito de não ser suficientemente firme em questões de armas e defesa nacional. E como o 11/9 aconteceu no governo Bush, os republicanos passaram a culpar o antecessor Bill Clinton de ter falhado no combate à ameaça terrorista no mundo.

Em 2008 a direita tenta pintar Barack Obama como incapaz de ser comandante-chefe ou enfrentar o terrorismo. A dupla Bush-McCain insiste nisso. Se fosse Hillary Clinton a candidata, enfrentaria campanha igual. Em 2006 o marido dela irritou-se contra a submissão da mídia à versão bushista do 11/9. Clinton disse à Fox News: “Nós dois falhamos. Eu ao menos tentei. Ordenei ataques, autorizei até o assassinato de Bin Laden. Por que vocês não perguntam a ele (Bush) o que fez? Nunca tentou nada, apesar de advertido por nós sobre a gravidade do problema”.

Antes do 11/9 muita gente referiu-se à ameaça. A dois meses da tragédia do World Trade Center escrevi: “Apesar de ter sido iniciado no terrorismo pela CIA, que coordenava a guerrilha islâmica contra os russos no Afeganistão, Bin Laden só virou celebridade nos EUA ao atacar embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia”. Estávamos no final de junho de 2001. Esta coluna explicava que Bin Laden era citado em jornais e TVs como alvo maior do esforço antiterrorista do governo Clinton no mundo.

A pior de todas as ameaças

Naqueles dias o embaixador dos EUA no Paquistão, William Milam, tinha feito dura advertência ao regime talibã de que seria responsabilizado “por qualquer ataque, em qualquer parte, a interesses americanos”. Milam tivera conversa de uma hora na embaixada local do Afeganistão (no poder mas não reconhecido pelos EUA), conforme informara à imprensa o embaixador afegão, Mullah Abdul Salam Zaeef.

Ele garantira ao diplomata dos EUA que os talibãs não permitiam a Bin Laden usar território afegão para atacar alvos americanos. No New York Times o colunista Thomas Friedman imaginara um memorando de Bin Laden a seus “operadores de campo” no qual considerava grande vitória medidas tomadas pelos EUA (como a retirada de forças em três países árabes) após ser interceptada conversa de terroristas em celulares sobre atentados que se planejavam.

Os EUA ofereciam então recompensa de US$ 5 milhões pela captura de Bin Laden – ilustre desconhecido até três anos antes. O que o público sabia dele devia-se então a uma reportagem da rede ABC, veiculada em junho de 1998, na qual fora entrevistado pelo jornalista John Miller. Foi quando abriu o jogo e fez esta ameaça: “Os americanos têm de morrer. E não vamos distinguir militares de civis”.

Vigilância até por satélite

Em seu reduto do Afeganistão, protegido por 3 mil adeptos, armas automáticas, lançadores de foguetes, etc., era vigiado até por satélite. Miller ouvira ainda o assessor de Segurança Nacional de Clinton, Sandy Berger, que explicou por que levava a sério a ameaça: “Bin Laden hoje é o mais perigoso terrorista do mundo”. Mas Bush chegou, Berger passou o cargo a Condoleezza Rice e não se falou mais no assunto.

Em junho de 2001 a mídia voltou a ocupar-se dele por causa do debate na ONU das sanções que se tentava impor aos talibãs para forçar a entrega de um militante extremista. E em tribunais dos EUA terroristas em julgamento foram acusados por atentados como os da África, contra alvos americanos, alguns não concretizados – como os da passagem do século nos EUA. Seriam de Bin Laden, como outras ações anteriores, inclusive a morte de soldados americanos na Somália em 1993.

As imagens na TV dos corpos de americanos arrastados pelas ruas de Mogadíscio, que tinham chocado o país, levaram agentes a arquivos de computador de terroristas, ligando o caso a Bin Laden. E mais: em tribunais de Nova York, um saudita, um tanzaniano, um jordaniano e um americano nascido no Líbano foram então acusados de ações terroristas para Bin Laden. Ou seja, sob Clinton a CIA e o FBI agiam; sob Bush não.

O erro da direita republicana

O ataque em outubro de 2000, no Iêmen, ao USS Cole, da Marinha americana (17 mortos, 39 feridos), fora definitivamente atribuído à al-Qaeda do terrorista saudita. Em razão disso ações repressivas continuaram, inclusive a prisão em junho de 2001 de uma dezena e meia de militantes islâmicos extremistas. Surgiu ainda ali a suspeita de que existia plano em andamento para atacar a embaixada americana.

Outros trechos da coluna de Friedman no Times referiram-se a conversas entre Bin Laden e seus adeptos. O colunista espantou-se, pois o governo Bush dispunha-se a gastar US$100 bilhões no escudo espacial antimísseis, contra ameaça inexistente; e ignorava o terrorismo, ameaça real. Era óbvio que terroristas não atacariam com mísseis balísticos intercontinentais (e endereço óbvio do remetente). Friedman imaginava o raciocínio do líder terrorista: “Não usarei um cartaz com a palavra BURRO. Vamos atingi-los da forma como se explodiu a base saudita de Khobar: levas de operadores locais, sem endereço de nenhum país.”

Quatorze foram acusados nos tribunais americanos por aquele atentado. A suposição foi de que os iranianos o coordenaram, mas não havia prova capaz de justificar uma represália. Tudo isso aconteceu a apenas dois meses do 11/9. Friedman avisou. Até minha coluna na Tribuna da Imprensa comentou. Mas o governo Bush nada viu, nada ouviu, nada disse. E culpou Clinton pelo 11/9. A pretexto de que democratas são fracos em defesa nacional.

Published in: on maio 30, 2008 at 7:53 pm  Comments (1)  

A mentira e a fraude no império de Bush

Enquanto era secretário de imprensa na Casa Branca, apresentando as versões oficiais do governo e respondendo às perguntas dos jornalistas, Scott McClellan parecia discreto e bem educado. Não costumava alterar a voz e às vezes fingia não ter ouvido uma ou outra pergunta mais agressiva. Agora, dois anos depois   de deixar o cargo, está com a boca no trombone, num livro estilo kiss’n tell (beija e conta).

O presidente Bush já teve de enfrentar outros produtos do gênero, até mais contundentes, como os do ex-secretário do Tesouro Paul O’Neill (The Price of Loyalty, assinado pelo jornalista Ron Suskind mas contendo desabafos do ex-secretário), do ex-diretor da CIA George Tenet (At the Center of the Storm) e do ex-assessor de contraterrorismo Richard Clarke (Against All Enemies).

Mas com What Happened: Inside the Bush White House and Washington’s Culture of Deception (O que aconteceu: Por dentro da Casa Branca de Bush e da cultura da fraude em Washington), McClellan tornou-se o primeiro ex-integrante do grupo mais próximo ao presidente, levado por Bush do governo do Texas para a Casa Branca, a embaraçá-lo publicamente com revelações comprometedoras (saiba mais AQUI sobre o livro, cujas encomendas crescem na amazon.com)

Induzido a enganar a mídia

McClellan teve um exemplo na família: já estava na Casa Branca, em 2003, quando o pai Barr McClellan lançou no Texas o livro Blood, Money & Power – How L.B.J. Killed J.F.K. (Sangue, dinheiro & poder – Como LBJ matou JFK) – teoria conspiratória (mais uma) que atribuía a morte do presidente Kennedy ao sucessor Lyndon Johnson em articulação com o superadvogado texano Ed Clark (veja AQUI).

Ao contrário do livro do pai, o do ex-secretário de imprensa – que ainda não chegou às livrarias mas já ganhou a primeira página (ontem) do Washington Post e um espaço destacado no website do New York Times – traz informações francas e bem fundamentadas sobre as trapalhadas, fraudes e mentiras do governo, inclusive a guerra e o vazamento criminoso da identidade da ex-agente Valerie Plame (leia AQUI como o autor defendeu seu livro hoje no Washington Post).

O autor conta no livro, por exemplo, que durante dois anos não sabia ser mentira o que as autoridades do primeiro escalão da Casa Branca mandaram que dissesse à imprensa sobre o caso de Plame, negando o envolvimento do mais alto assessor de Bush, Karl Rove, e do chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, Irving Lewis (Scooter) Libby, depois condenado por perjúrio e por mentir no tribunal.

McLellan acredita hoje que foi enganado e que o próprio Bush também foi enganado. Mas Bush somou-se ao poderoso grupo palaciano que buscava convencer o secretário de imprensa a passar informações mentirosas aos jornalistas e à mídia. “As autoridades maiores sabiam a verdade – inclusive Rove, Libby e possivelmente o vice-presidente Cheney. E não apenas permitiram que eu mentisse, mas me encorajaram a continuar repetindo a mentira”.

O mágico de Oz no comando

Como era secretário de imprensa no período que antecedeu a guerra e nos três anos posteriores, McClellan pôde dedicar um capítulo inteiro do livro a analisar a maneira como Bush “vendeu a guerra” aos americanos, sistematicamente ocultando a verdade. Segundo What Happened, Bush “administrou a crise de uma maneira que quase garantia ao país que o uso da força iria se tornar a única opção viável”.

A guerra tornou-se depois, na visão de McClellan, “uma grande trapalhada estratégica”. Ele assinalou que antes, “durante o verão de 2002, altos assessores de Bush tinham delineado uma estratégia para orquestrar cuidadosamente a campanha que viria em seguida com o objetivo de vender agressivamente a guerra. (…) A questão central era como manipular as forças da opinião pública em favor do presidente”.

Apesar de ter sido, no pódio da sala de imprensa da Casa Branca, um defensor resoluto da guerra, McClellan chegaria mais tarde a uma conclusão totalmente diferente. “O que eu sei hoje é que uma guerra só deveria ser desencadeada se realmente fosse necessária. E a guerra do Iraque não era necessária”, escreveu o ex-secretário de imprensa no livro.

Sem chegar a ser explícito, ele sugeriu que o presidente mentia deliberadamente sobre suas razões para invadir o Iraque. No esforço para convencer o país, disse, Bush e seus subordinados, sem a menor dúvida, recorreram à fraude para ter sua guerra. McClellan, ao mesmo tempo, descreveu Cheney como “o mago” que dirigia a política por trás do pano, sem deixar impressões digitais. 

Rove na campanha permanente

Para o blog “Crooks and Liars” (Vigaristas e Mentirosos), talvez a crítica mais importante, apesar de quase ignorada nos jornais) de McClellan seja à “mídia liberal” (Times, Post, grandes redes, etc), por ter sido “submissa e instrumento cúmplice” da “propaganda” que levou à guerra. Os âncoras das três grandes redes (Charlie Gibson, Brian Williams e Katie Couric), entrevistados no “Today” da NBC, só reconheceram erros parciais, dando desculpas esfarrapadas (leia AQUI).

Segundo a reportagem do Post, o autor retratou o presidente Bush como um líder fora da realidade, que operava numa bolha política e se recusava teimosamente a reconhecer quaisquer de seus erros. Apesar de considerá-lo inteligente e capaz de governar o país, McClellan o encara também como “pouco inclinado a refletir sobre o seu cargo – ou incapaz de fazê-lo”.

Para o autor do livro, “um executivo mais autoconfiante não se furtaria a reconhecer o fracasso e confiaria na capacidade das pessoas de perdoar aqueles que buscam redimir-se de erros, dispondo-se a mudar o rumo”. Mas Bush, ao contrário, deixava-se iludir pelos próprios artifícios enganosos que tinha passado a usar na tentativa de convencer outras pessoas.

O presidente e sua Casa Branca, acredita McClellan, operavam numa campanha política permanente, administrada por Rove. Bush tinha jurado que, ao contrário do pai, não iria perder a reeleição. “Isso significava manter-se numa campanha contínua: nunca explicar, nunca desculpar-se, nunca recuar. (…) E essa estratégia tinha repercussões: nunca refletir, nunca reconsiderar, nunca transigir. Principalmente em relação ao Iraque”.

Published in: on maio 29, 2008 at 6:02 pm  Deixe um comentário  

Um repórter que virou “insider”

Antes de Judith Miller, que se julgava repórter de investigação apenas porque se apresentava às autoridades para receber vazamentos manipulados do poder, houve James (“Scotty”) Reston. Ele morreu de câncer em 1995, aos 86 anos, após meio século de uma carreira durante a qual foi de repórter a diretor de redação (Managing Editor) do New York Times. Como ela, esteve próximo demais da cúpula do poder.

Transformado em mito, ele contou sua história num livro de memórias – Deadline, publicado 1992. E 10 anos depois John F. Stacks publicou sua biografia (saiba mais AQUI sobre ela). Para o colega R.W. Apple, o acesso aos governantes é que o tornou um grande jornalista de seu tempo. “Podia ir e falar com o presidente, o secretário de Estado, o da Defesa. Era recebido em Moscou pelo líder do Kremlin e em Paris pelo general De Gaulle. Além de recebê-lo, eles falavam com ele de igual para igual” (leia AQUI uma entrevista de Apple à rede pública PBS logo depois da morte dele).

Isso, obviamente, além da capacidade de Reston de entender os problemas que abordava, sintetizá-los em estilo simples e compreensível e apresentá-los num texto atraente, sem burocratês, diplomatês e outros complicadores. Numa entrevista, Apple foi perguntado como Reston conseguia aquele acesso. “Se soubesse, eu próprio também já o teria”, respondeu.

Sacrificando a independência

Já como diretor da sucursal de Washington, antes de assumir o mais alto posto da redação em Nova York, Reston era um dos jornalistas mais poderosos de sua geração – a geracao que acompanhou o drama da guerra fria e viu o mundo à beira de uma catástrofe nuclear que felizmente nunca aconteceu. Ele desempenhou papel relevante desde o inicio no chamado consenso da guerra fria.

No livro de memórias, Reston contou como contribuiu para a elaboração do célebre discurso no qual o senador republicano Arthur Vandenberg, em janeiro de 1945, renunciou ao isolacionismo para tornar-se um ator sensível em seguida ao lançamento da chamada doutrina Truman. Mas o ponto crucial do debate suscitado pelo livro em 1992 foi sobre o papel da mídia e dos jornalistas.

Até que ponto um profissional de mídia sacrifica a própria independência para entregar-se ao jogo de conveniências a fim de penetrar no centro do poder e impulsionar a própria carreira, numa relação mais ou menos promíscua com as fontes? Uma vez fiz referência à desconfiança manifestada por Joel Silveira -num de seus livros, Conspiração na madrugada - sobre a independência dos jornalistas que falam a qualquer hora com governantes e ditadores.

Nos EUA esse tipo de jornalista costuma ser chamado de insider. Para muita gente, inclusive estudiosos sérios dos meios de comunicação, é impossível ser, ao mesmo tempo, insider e independente. Uma coisa implica, inevitavelmente, no sacrifício da outra. “É uma contradição diabólica”, escreveu outro jornalista de Washington, Elias Vlanton, em bem fundamentada crítica às memórias de Reston (conheça também AQUI uma visão crítica da esquerda, de Edward S. Herman).

As manobras de bastidores

Não por acaso muitos jornalistas assim são cooptados pelo governo. No passado o próprio Times perdeu alguns para o Pentágono e o Departamento de Estado. Mas Reston preferia ficar na redação e ter linha direta com a Casa Branca. As memórias dele deixaram claro que pagou um preco para preservar essa situação – preço que expõe a ambiguidade de seu papel.

Ele contou, por exemplo, que muitos meses antes da derrubada do piloto Francis Gary Powers já sabia dos vôos clandestinos do avião-espião U-2 sobre a União Soviética. O incidente do U-2 em 1960 fez fracassar uma cúpula Eisenhower-Kruschev (conheça os detalhes do incidente AQUI, nos arquivos de Eisenhower). A história poderia ser diferente se Reston tivesse cumprido seu dever profissional e informado sobre aqueles vôos? Nesse e em outros casos, o insider prevaleceu sobre o jornalista.

Outros episódios recordados em Deadline, envolvendo situações parecidas, também são controvertidos, como destacou Vlanton. Será lícito, por exemplo, um jornalista “plantar” as próprias propostas? Certa vez a revista Time disse que Reston fazia exatamente isso. Às vezes tinha uma idéia, um certo plano, e arranjava uma fonte para dizer que aquilo estava em estudos no governo.

É surpreendente ainda que já no início de 1953 o poder de Reston lhe permitisse atuar como fez no caso dos documentos sigilosos da Conferência de Yalta. Depois de descobrir que cópias de minutas seriam liberadas a congressistas e temendo que fossem usadas pela Direita republicana (leia-se: Joe McCarthy) para acusar Franklin Roosevelt de ter entregue a Europa Oriental aos comunistas, recorreu a John Foster Dulles.

A verdade e a capitulação

O então secretário de Estado deixou-se convencer pelos argumentos de Reston, que achava aquela “liberação” extremamente perigosa. Assim, as 834 páginas foram parar, como vazamento, na própria redação do New York Times – não em nome do direito da população a ser informada e sim da conveniência política dos detentores do poder (e do jornal), temerosos de uma ofensiva da Direita republicana.

Outro grande pecado de Reston, talvez traição à integridade jornalística, pode ter sido sua conduta em abril de 1961. Buscou a todo custo impedir publicação do “furo” de Tad Szulc, repórter que descobrira na Flórida os preparativos para o ataque à baía dos Porcos, planejado pela CIA. Em Washington, o presidente Kennedy convencera Reston a não publicar a reportagem de Szulc.

Em Nova York, o editor executivo Clifton Daniel resistiu. Mas sob a pressão de Reston e Kennedy, o jornal – com o respaldo da alta cúpula – minimizou e descaracterizou o texto. Depois do fracasso da invasão, o próprio Kennedy reconheceria que se o Times tivesse cumprido seu dever de informar, o país seria poupado daquele desastre da política externa (veja AQUI como o jornal relatou o fato anos depois, no obituário de Szulc).

Reston também foi mais insider do que jornalista ao deixar de defender seu repórter Clayton Knowles, que cobria o Senado. Acusado pelo senador McCarthy de ter sido comunista 15 anos antes, Knowles foi transferido de Washington para Nova York. No livro Reston relatou o episódio como se tivesse “ajudado” Knowles, que passou o resto da vida em tarefas anódinas. Na verdade, fora outra rendição do insider.

Published in: on maio 28, 2008 at 2:01 pm  Deixe um comentário  

Ainda Hillary, no fim da linha

 O escorregão da senadora Hillary Clinton na sexta-feira pode ter sido definitivo. Ela sentiu a barra e voltou à carga domingo amontoando mais explicações numa carta ao tablóide Daily News de Nova York (veja a capa ao lado). O burocrático pedido de desculpas dela à família Kennedy antes, como se o rival Barack Obama não fosse parte da equação, subestimou o episódio. Como destacou o blog de política do New York Times (The Caucus), pode ter sido um dos piores dias de toda a carreira política da ex-primeira-dama (saiba mais AQUI).

Ao tentar justificar a atual obsessão dela em continuar uma campanha na qual já está há muito derrotada, Hillary disse que a definição em 1992 a favor do marido Bill Clinton só ocorreu em meados de junho de 1992. E para completar lembrou explicitamente o assassinato de Bob Kennedy, também em junho (no dia 6, há 40 anos), momentos depois da vitória dele na primária da Califórnia. Antes de Hillary, o republicano Mike Huckabee fizera piada de mau gosto ao falar na NRA, o maior lobby de armas do país (veja abaixo, via YouTube: ouve-se um barulho e ele diz que era Obama jogando-se no chão ao ver alguém apontar-lhe uma arma).

Ainda que Hillary tenha alegado mais tarde que o nome Kennedy estava na cabeça dela naquele dia por causa da doença do senador Ted, tendo a citação resultado disso, o apresentador Keith Olbermann, da rede de cabo MSNBC, mostrou como desde o início de março ela vem citando, de forma também obsessiva, o assassinato do senador Bob Kennedy na campanha de 1968. Aquela fora a terceira ou quarta vez.

Kennedy, Luther King, Obama

O que teria isso de tão mau, considerando a relevância da tragédia daquele ano para o Partido Democrata e o país? Ora, o general Colin Powell, apontado em 1995 como o nome largamente preferido pelos americanos, dos dois partidos, para a eleição presidencial de 1996, desistiu ante a ameaça de sua mulher Alma de abandoná-lo, pois estava convencida de que ele seria assassinado na campanha (leia AQUI como o site da BBC deu a informação em 2002, com base no livro Bush at War, de Bob Woodward).

Na atual campanha Obama recebeu a primeira ameaça tão logo declarou-se candidato à Casa Branca. É sabido que outras vieram depois, justificando a rigorosa proteção dada a ele pelo serviço secreto desde julho de 2007. E a morte de Bob Kennedy há 40 anos, como sabem os americanos, ocorreu apenas dois meses depois do assassinato do reverendo Martin Luther King Jr.

Em Nova York outro pastor negro – Al Sharpton, que apoiou as duas campanhas de Hillary para o Senado mas há algum tempo transferiu dela para Obama a sua preferência presidencial – transmitiu a Hillary sua indignação. Ele contou ao Daily News ter falado com ela sábado sobre a referência que fez ao assassinato de Bob Kennedy. “A senadora entendeu a firmeza de meus sentimentos”, acrescentou (leia AQUI). 

O fósforo e o ambiente inflamável

Leitores daquele tablóide novaiorquino também reagiram com irritação. “É repugnante, Hillary chegou ao fundo do poço”, disse um. “Ela fez um favor a Obama, agora ele não tem sequer de considerar a hipótese de oferecer a ela a vice-presidência na chapa”, afirmou outro. “Sugerir que ela continua na disputa porque acha que Obama será assassinado é algo doente e repugnante”, opinou um terceiro.

Sharpton disse aos ouvintes de seu programa de rádio acreditar que nem Hillary e nem o ex-candidato republicano Huckabee, que fez a piada na NRA (Associação Nacional do Rifle), não tiveram más intenções. “Mas o ambiente é inflamável. (…) É preciso ter muito cuidado ao se usar uma caixa de fósforos”, explicou o reverendo em Nova York.

Ao pedir desculpas à família Kennedy (e também na carta ao jornal), a senadora garantiu que buscava apenas justificar o prolongamento da campanha até junho, dando ênfase ao fato de ser isso “normal”, tendo também acontecido em outros anos. Ela e alguns de seus assessores insistiram na tese. Um deles, Mo Elleithee, declarou, irritado, que as palavras da senadora foram distorcidas. Numa declaração raivosa considerou “equivocado” e “ultrajante” o que estava sendo publicado.

A campanha e o ódio racial

Mas alguns rejeitam a alegação dela sobre a “normalidade” do calendário eleitoral e a doença do senador Ted Kennedy: Hillary já vinha insistindo há algum tempo em citar o assassinato de 1968. “As disputas primárias costumavam durar mais tempo”, disse à revista Time a 6 de março. “Todos nós lembramos da grande tragédia do assassinato de Bob Kennedy em junho de 1968. (…) Levar a disputa até junho não é incomum”.

O raciocínio, no entanto, é duvidoso, pois a disputa de 2008 já se tornou a mais longa da história. Começou muito antes de qualquer outra. O calendário foi virado pelo avesso e a própria primária da Califórnia, antes realizada em junho, este ano foi antecipada para a Super Terça-Feira de 5 de fevereiro. Olbermann, ao questionar duramente o argumento de Hillary na MSNBC, usou palavras contundentes.

Num “comentário especial”, denunciou até a decisão dela de ficar repetindo a palavra “assassinato” em meio a uma campanha marcada por ódio racial, ódio sexista e ódio político. E mais: “Num momento em que existe um medo, não declarado mas bem vivo, de que de novo nesse panorama político conturbado o alvo pode ter um homem negro, que está disputando a presidência” (clique a imagem abaixo do You Tube para ouví-lo destroçar, em 10 minutos, toda a argumentação dela).

Published in: on maio 26, 2008 at 4:02 pm  Deixe um comentário  

O desespero final de Hillary Clinton

Apesar das novas informações de ontem sobre a possibilidade de Barack Obama aceitar Hillary Clinton para vice de sua chapa, a ex-primeira dama e seu marido podem estar indo longe demais e neutralizando a hipótese. Mesmo depois de uma trégua relativa, ela passou ao absurdo de associar a imagem de seu Partido Democrata à do regime de Zimbabwe e à fraude republicana de 2000 na Flórida.

As razões do casal Clinton, no entanto, é que caracterizam fraude. Incapaz de derrotar o adversário nas primárias, “caucuses”, votação popular, número de delegados e número de vitórias nos estados, Hillary agarra-se ao estranho remédio de mudar as regras, com as quais concordara previamente, para validar as votações irregulares de Michigan, onde só o nome dela estava na cédula, e da Flórida.

Os dois estados, punidos pela direção nacional do partido (com o apoio unânime de todos os candidatos) por terem antecipado a data de suas primárias, tornaram-se a derradeira esperança de Hillary. A única aposta dela agora é nessa trampa. Daí ir ao extremo de lançar a lama de Mugabe (Zimbabwe) e Bush (Flórida 2000) para manchar a reputação do próprio partido.

Mudar as regras após a derrota

Os excessos da retórica clintoniana, no entanto, ameaçam pôr fim ao cessar-fogo que ela e Obama vinham observando nas últimas semanas, conforme assinalou o veterano colunista político E. J. Dionne, doWashington Post. Há algum tempo esta coluna tem feito referência à obsessão com que Hillary passou a recorrer a qualquer expediente na ânsia de inverter o resultado depois do jogo – no tapetão.

Dionne espanta-se agora com a teimosia dela em pressionar tanto a comissão de regras do partido como a comissão de credenciais da convenção nacional democrata – a ser realizada apenas no dia 28 de agosto – fingindo ser essa a maior crise para a democracia americana desde a recontagem de votos da Flórida, interrompida por ordem da Suprema Corte do país.

A retórica inflamada de Hillary contrasta com os intensos esforços de membros da comissão de regras para superar os obstáculos ainda existentes. Eles acham possível chegar a acordo razoável sem prejudicar a indicação de Obama. Isso porque o senador não pode ser punido por uma decisão da cúpula nacional do partido – da qual não participou mas com a qual concordou, juntamente com Hillary e os demais candidatos.

Acordo baseado no bom senso

As chances da ex-primeira dama são mínimas, até porque até alguns adeptos dela já consideram a disputa encerrada. O acordo mais provável será dar assento às delegações da Flórida e de Michigan, mas com a metade dos votos. Isso não iria contra as regras do partido. Foi também assim que os republicanos solucionaram problema semelhante em dois estados contestados.

“Se fizermos isso direito, cada um ficará um pouco mais contente, ainda que nenhum consiga tudo o que quer”, disse a Dionne a secretária do partido, Alice Germond, que fará a chamada dos delegados na convenção democrata de Denver, Colorado. Germond também integra a comissão de regras. Ela acha inconcebível o partido não encontrar uma saída para dar assento às delegações dos dois estados.

A vantagem de Obama sobre Hillary em número de “delegados comprometidos” (os escolhidos nas primárias) é de 185. A campanha de Hillary alega que ela reduziria essa diferença em 111 com os dois estados. Isso se os “não comprometidos” continuarem nessa condição. Se eles forem dados a Obama – o correto, já que eram originalmente pró-Obama – o ganho dela seria apenas de 56.

Sem mais coelhos na cartola

A campanha do senador negro reivindica, pela irregularidade da votação, que os delegados sejam divididos igualmente entre os dois candidatos. Aceitaria ainda, provavelmente, um compromisso em torno do meio voto, o que daria vantagem de 17 a Hillary. Mas como ela não tem mais coelhos para tirar da cartola, está determinada a sustentar uma batalha dentro da convenção.

Apesar da pequena trégua após a derrota que selou sua sorte na Carolina do Norte, Hillary tinha feito antes ataques macarthistas – tipo “culpa por associação” – a Obama (invocou tanto os pecados do pastor Jeremiah Wrigh como o ativismo de Bill Ayers, que foi radical há 40 anos). Ela se beneficiou, além disso, com votos republicanos da “Operação Caos” lançada pelo ultraconservador Rush Limbaugh com a intenção declarada de golpear o Partido Democrata.

Dificilmente essa linha da campanha dela, em especial a adesão à “estratégia do medo” de Bush e a ameaça de incendiar a convenção, traz algum benefício ao partido. Daí a esperança de que os próprios seguidores de Hillary na comissão de regras – como previu Dionne – a forcem a aceitar um acordo. Caso insista na batalha da convenção, disse ele, correrá o risco de ser derrotada não pelos inimigos mas pelos próprios amigos.

Published in: on maio 24, 2008 at 1:51 pm  Deixe um comentário  

Mais uma falsificação histórica na TV

 Circula há algum tempo pelos canais de cabo uma versão bushista do 11 de setembro – a minissérie The Path to 9/11, docudrama produzido pela rede ABC, propriedade da nesna Walt Disney Company que antes tentou censurar o Farenheit 9/11 de Michael Moore. Segundo o conhecido site Media Matters for America, de crítica de mídia, ela não escorregou apenas ao tentar transferir para a administração anterior os erros grosseiros do governo Bush em relação ao terrorismo.

Outra reputação que saiu gravemente comprometida na falsificação histórica praticada pela Disney-ABC em 2006, afirmou, foi a do especialista em terrorismo John P. O’Neill. Agente do FBI até agosto de 2001, ele deixou o emprego desgostoso com o desinteresse do governo Bush pela luta antiterrorista e aceitou o cargo de chefe da segurança do World Trade Center, onde morreria no dia 11 de setembro.

O próprio ator que interpretou o papel de O’Neill no filme da ABC, Harvey Keitel, manifestou graves reservas pela maneira como seu personagem foi retratado no roteiro. Um artigo publicado em setembro de 2006 pelo tablóide New York Post citou as críticas de Keitel. Percebendo a inconsistência do script, o ator contratou seu próprio pesquisador – o que lhe permitiu fazer alguns remendos no diálogo.

Os mísseis e a caverna

Esse detalhe ajuda a entender a leviandade das redes de TV dos grandes impérios de mídia como a Disney-ABC. A ABC relutou, mas acabou sendo forçada a mudar alguma coisa no filme – tal o escândalo ao ficar claro que entregara a responsabilidade pelo roteiro a um certo Cyrus Rasnowteh, um conservador bushista obcecado em absolver o governo responsável, de Bush, e culpar seu antecessor Clinton.

Antes mesmo do lançamento da minissérie, outro conservador bushista – Rush Limbaugh, apresentador de talk show de rádio – vangloriou-se em seu programa de ter ouvido do amigo Rasnowteh que o filme ia responsabilizar a equipe de Clinton pelo 11/9. A ironia é que a preocupação maior de Clinton na transição de governo fora alertar Bush para a gravidade da ameaça representada por Bin Laden.

Desde o primeiro momento a nova equipe republicana subestimou as ameaças daquele chefe terrorista enfurnado numa caverna do Afeganistão. O compromisso de Bush era injetar centenas de bilhões de dólares na indústria de armas a fim de ser retomado o chamado escudo espacial (ou “guerra nas estrelas”), a defesa antimísseis imaginada no governo Reagan contra a URSS, dissolvida em 1989.

A trama por trás das câmeras

O filme era, desde o início, uma megafraude – dificilmente tornada menos agressiva aos fatos depois dos remendos. Por isso mesmo a extrema direita, com papel conspícuo para o controvertido Limbaugh, saudou antecipadamente a minissérie como portentoso evento político, a dois meses da eleição (na qual Bush perderia o Senado e a Câmara). Limbaugh e outros tiveram acesso exclusivo às informações sobre o filme, privilégio negado a críticos do governo Bush.

O fato de também O’Neill ser difamado é relevante. Ele se tornara, no FBI, o maior estudioso de Bin Laden. Encontrara muita incompreensão, ainda no governo Clinton, por insistir nesse rumo. Mas a trombada maior veio já no governo Bush, quando decidiu demitir-se do bureau e aceitar o emprego no World Trade Center – convencido de que quase certamente seria tentada ali uma nova ação terrorista.

Estão entre os alvos do roteirista, juntamente com O’Neill, o próprio Clinton, acusado de desviar a atenção de Bin Laden ante a fúria republicana do impeachment, sua secretária de Estado Madeleine Albright e o assessor de segurança nacional Sandy Berger. Mas em agosto de 1998, ao ordenar o ataque a Bin Laden em seguida às explosões no Quênia e Tanzânia, Clinton tinha sido ridicularizado pela oposição republicana com a alegação oposta – de que atacara Bin Laden para desviar a atenção do caso Lewinsky.

O estranho consultor remunerado

Também grave na controvérsia da minissérie que tanto entusiasmou os bushistas foi o envolvimento do próprio presidente da comissão que investigou o 11/9 – Thomas Kean, o republicano transformado pela ABC em consultor pago da fraude. A intenção do império Disney era certamente transformar aquela ficção leviana de Rasnowteh numa espécie de versão oficial a ser abraçada pelos livros de história.

A comissão tivera integrantes republicanos e democratas, que trabalharam sob a coordenação de um republicano (Kean) e um democrata (Lee Hamilton). Fora uma receita hábil, tentado certo equilíbrio. Kean acabaria forçado, ao estourar a controvérsia da mini-série, a reconhecer que há coisas no filme que não estão no relatório da comissão. E depois destinou a organizações de caridade a remuneração recebida.

Os produtores fingiram ignorar que o presidente Bush buscou deliberadamente retardar, mais de um ano, a criação da comissão (as de Pearl Harbor e da morte de John Kennedy vieram poucos dias depois do fato). Além disso, impuseram-se limitações ao depoimento do próprio Bush. Nenhum presidente no passado ousou manipular uma investigação de forma tão desavergonhada. O docudrama da ABC foi mais um esforço nessa direção.

Published in: on maio 24, 2008 at 1:36 pm  Comments (3)  

O “risco sistêmico” e a lambança dos banqueiros

Em 2006 não havia dúvida em Wall Street de que estava para ser furada a bolha hipotecária – pesadelo que os americanos ainda vivem. A suspeita hoje é de que no fim daquele ano os próprios bancos, conscientes da lambança feita, decidiram agravar o quadro, ampliando ainda mais a bolha, para obrigar o governo, ante o “risco sistêmico”, a socorrê-los – na certa sonhando com um PROER igual ao de FHC e Pedro Malan, que distribuiu bilhões de reais aos bancos tupiniquins.

Eu me lembrei do episódio ao deparar em O Globo, há dois dias, com a foto da alegre vereadora tucana Andrea Gouvêa Vieira, ex-Bacha, com meia dúzia de responsáveis por aquela e outras lambanças tucanas – todos condecorados por ela com a medalha Pedro Ernesto. E o que fazem hoje Malan, Edmar Bacha, Gustavo Franco, André Lara Resende e o resto da turma? Por coincidência, são todos banqueiros.

Inspirado ou não nos nossos tucanos, o PROER do governo Bush veio. Bancos não têm queixas, mas quem tinha hipoteca em razão da irresponsabilidade dos banqueiros é escorraçado e vê sua casa ir a leilão, sem choro nem vela. Foi o caso da faxineira brasileira Naira Costa, que queria uma casinha modesta, mas teve a hipoteca de US$713 mil – exatamente como uma babá, também brasileira, contemplada com US$495 mil (leia AQUI a história de Naira, na primeira página do Wall Street Journal de 6 de dezembro de 2007).

Volto ao assunto, embora a intenção de O Globo fosse apenas recordar os sorridentes banqueiros como “criadores do Plano Real” (sem falar nas feitiçarias da turma), mais para lembrar do que aconteceu em dezembro de 2006, quando os executivos de corporações, em especial bancos de investimento e corretoras de Wall Street, entregavam-se a uma orgia de gastos para usar seus ganhos duvidosos.

Um ano de trabalho, US$ 54 milhões

Wall Street vivera a partir de dezembro de 2001 uma sucessão de escândalos. Ken Lay, da Enron, morreria na cadeia, seu colega Jeffrey Skilling ainda cumpre pena, outros – Bernie Ebbers (WorldCom), Dennis Kozlowski (Tyco), etc. – viveram problemas semelhantes, nem sempre adequadamente punidos. Nomes de empresas tornaram-se símbolos das fraudes corporativas: Arthur Andersen, Global Crossing, Adelphia, Halliburton, Qwest, Xerox.

Organismos federais (como a SEC) que deviam investigar foram incompetentes porque o governo Bush tinha nomeado “raposas para cuidar do galinheiro”. A ação contra os ladrões de Wall Street teve de ser feita então pelo procurador geral de Nova York, Eliot Spitzer, invocando sua jurisdição geográfica sobre aquela rua da cidade. As provas contundentes reunidas por ele obrigaram os bancos a pagar multas de bilhões de dólares – e esse êxito o levaria depois ao governo do estado, onde acabou atropelado por escândalo sexual.

A ação vigorosa do procurador geral contra os “colarinho-branco” da elite financeira apanhou gigantes como Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Salomon Smith Barney (Citigroup), Merril Lynch, Lehman Brothers, Bear Stearns, Credit Suisse First Boston, Deutsche Bank, Morgan Stanley, UBS Warburg – os mesmos que às vésperas do Natal de 2006 contemplaram os executivos com bônus milionários.

À frente do pelotão, o presidente e CEO da Goldman Sachs, Lloyd C. Blankfein, deu-se de presente US$ 53,4 milhões, perfazendo (com o salário anual de US$ 600 mil) nada menos de US$ 54 milhões por um ano de trabalho. No final do ano anterior Blankfein já se dera US$ 38 milhões. Atribuía a decisão ao “Comitê de Compensação”, mas a tramóia é conhecida. O CEO manobra, leva o seu e premia os cúmplices com mais algum.

Ferrari de US$ 250 mil: em falta

Ouvi na época uma explicação dada no programa de economia de Neil Cavuto, que se orgulha, na notória Fox News, de ser tendencioso – como fora Henry Luce – a favor de Deus, do capitalismo e do Partido Republicano (não necessariamente nessa ordem). Daquela vez nem parecia tanto. Botou a boca no trombone: “Ao embolsar a grana, os executivos impedem que ela chegue aos acionistas e investidores”, disse. Estava certo, ainda que não tenha falado no contribuinte, que acabaria pagando a conta. 

A justificativa então para os bônus era que os executivos tinham elevado o faturamento. Só que isso fora feito leviana e ilusoriamente – com “feitiçaria”, para usar palavra tucana. Os empréstimos sem colateral autorizados por eles inflaram a bolha. O executivo fingia servir ao cliente, ao acionista, ao investidor, mas fez o contrário – tirou dos que confiaram nele e enfioua no próprio bolso. Spitzer descobriu memorandos internos escancarando o desprezo deles pelo investidor. Os clientes eram ridicularizados. E o combustível em Wall Street, como se sabe, é cocaína.

Assim, quando é maior o lucro de bancos e corretoras os executivos se apressam a botar a mão da mufunfa. Em 2006 o ranking foi assim: 1. Goldman Sachs; 2. Morgan Stanley; 3. Blackstone Group; 4. Lehman Brothers; 5. JP Morgan; 6. Citigroup Investment; 7. Merrill Lynch; 8. Lazard; 9. Credit Suisse; 10. JP Morgan Chase; 11. UBS; 12. Citigroup; 13. Deutsche Bank; 14. Bear Stearns. Hoje sabemos o que houve com o Bear Stearns.

O New York Times publicou – apropriadamente, no dia de Natal – uma sugestiva reportagem sobre o caso dos “bônus” dos executivos. O título foi: “Tanto dinheiro e tão poucas Ferraris”. Explicava que não houve Ferrari 599 GTB Fiorano (US$ 250 mil cada) em número suficiente na revendedora de Greenwich (Connecticut) para atender às encomendas dos executivos de Wall Street (veja abaixo o gráfico do jornal com os ítens e os preços).  

Apartamentos de US$ 20 milhões

Contou ainda que uma aeromoça vendia vôo fretado em frente à sede da Goldman Sachs. Preço: US$ 30 mil. “É como se fosse seu jato particular”, explicou ela a um executivo que se mostrava interessado. Ao mesmo tempo, um corretor de imóveis, de olho na gorda comissão, lamentou não ter conseguido encontrar em Manhattan duas propriedades de US$ 20 milhões encomendadas por altos executivos.

Ao mesmo tempo, financistas já instalados em multimilionários apartamentos e town houses, estavam então comprando apartamentos de US$ 5 milhões para os filhos. E mais: casas de férias, em geral compradas e vendidas na primavera, foram muito procuradas em pleno inverno, inclusive em resorts privados (como o Yellowstone Club, perto do Parque Nacional de Yellowstone, em Montana).

Em apenas três semanas, dizia o Times, uma imobiliária tinha vendido seus quatro últimos apartamentos de Greenwich Village. A venda final foi um de dois quartos e dois banheiros, com uns 200 metros quadrados. Preço: US$ 7 milhões. Uma agente imobiliária contou: “Os executivos sabem que, ou compram agora, imediatamente, ou vai aparecer outro executivo, dar mais dinheiro e ficar com o imóvel”. Era esse o clima às vésperas da bolha hipotecária explodir (leia AQUI o texto completo do Times).

Published in: on maio 22, 2008 at 4:25 pm  Deixe um comentário  

O crime da Chiquita Brands na Colômbia

Na página inteira dedicada ontem à rendição na Colômbia da guerrilheira Karina (ou Nelly Ávila Moreno), O Globo atribuiu a ela, no título, a morte em 1983 de Álvaro Uribe Sierra, pai do presidente Álvaro Uribe Vélez – acusação desmentida em declaração dela própria reproduzida sem destaque no corpo da matéria (que ainda omite a ligação de Uribe Sierra com os paramilitares e o narcotráfico).

Mas a ênfase do jornalão dos irmãos Marinho na prisão dela torna oportuno e sugestivo revisitar o papel dos paramilitares na vida colombiana nos últimos 25 anos – o que foi tema, há apenas 10 dias, de uma reportagem reveladora apresentada no “60 minutes”, a revista jornalística de maior audiência na TV americana, por Steve Kroft, correspondente da rede CBS (leia AQUI a transcrição da reportagem).

O assunto devia interessar mais à mídia brasileira, pois no centro do palco está a conspícua transnacional “bananera” Chiquita Brands, atual encarnação de nossa muito conhecida United Fruit. Corporação de má fama e péssimos hábitos, ela está na história da América Latina por se envolver, com a proteção do governo dos EUA, na vida política de vários países, patrocinando intervenções e golpes.

Financiando bandos paramilitares

Depois de ser United Fruit, ela foi United Brands e, em seguida, Chiquita Brands. A novidade agora é que reconheceu perante o Departamento de Justiça dos EUA que pagou a bandidos paramilitares – as AUC, Autodefensas Unidas da Colombia, milhões de dólares, a título de “proteção”. A confissão levou a Justiça de Bogotá a pedir a extradição de seus executivos para julgamento na Colômbia.

Segundo a reportagem do “60 minutes”, as extensas plantações de banana na região de Uraba são o meio de vida de grande população no norte do país. E desde a década de 1980 a área tornou-se campo de batalha. Primeiro, dos guerrilheiros das FARC, que matavam e seqüestravam. Depois, dos exércitos privados paramilitares criados a pretexto de combatê-los e hoje mais dedicados ao narcotráfico.

A Chiquita alegou ter ficado entre dois fogos, sem que o governo colombiano a socorresse. “Nessas terras não havia lei”, disse à CBS Fernando Aguirre, atual executivo-chefe (CEO). A empresa pagava “imposto” aos guerrilheiros, que controlaram o território no final da década de 1980 e início da de 1990; e de 1997 em diante aos paramilitares, que ameaçavam com represálias ainda piores.

“Os paramilitares tinham assassinado mas de 50 pessoas, empregados da companhia. Era óbvio para todos que não estavam brincando”, disse Aguirre. Se a empresa não pagasse, acrescentou, haveria mais assassinatos e seqüestros. Eram conhecidas as atrocidades das AUC, financiadas ainda por grandes proprietários de terra (como a família Uribe, que tinha 25 fazendas) e o narcotráfico (clique abaixo, no YouTube, para ver o perfil do presidente Uribe). .

A missão de recolher cadáveres 

O objetivo era não apenas expulsar os guerrilheiros da área. Os paramilitares eliminavam qualquer um que tivesse a mais leve inclinação esquerdista, líderes sindicais e professores principalmente. Às vezes aldeias inteiras eram arrasadas, como testemunhou à CBS Gloria Cuartes, prefeita de Apartado. “Minha função, nesse cargo, parecia ser apenas a de recolher cadáveres”, contou.

Em 1996 ela viu um garoto de 12 anos ser assassinado na escola. “Eles cortaram a cabeça dele e jogaram em nós”, relatou Cuartes. “Fiquei em pânico. Eles permaneceram quatro horas na escola. Exibiam armas e faziam disparos, deixando todas as crianças em estado de choque”. O quadro só mudou, segundo Kroft, depois que os EUA passaram a considerar os paramilitares “organização terrorista”, tornando crime o financiamento deles.

Mas a Chiquita pagou “imposto” mais dois anos, até 2003, a pretexto de não ter sabido da decisão – publicada até no “Cincinatti Enquirer”, jornal da cidade de Ohio onde ela tem sua sede. Afinal a empresa foi aconselhada por seus advogados, ante processos iminentes de vítimas dos paramilitares, a sustar os pagamentos e confessar ao Departamento de Justiça dos EUA o que tinha feito. Finalmente, no ano passado, ela se declarou culpada pelo crime e concordou em pagar multa de US$ 25 milhões – o que não põe fim aos seus problemas jurídicos

Os lucros sangrentos da banana

Em quatro processos distintos, o advogado Terry Collingsworth exige na Justiça dos EUA indenizações para as famílias de uns 200 colombianos assassinados pelos paramilitares. Ele argumenta que o dinheiro pago durante sete anos pela Chiquita pode ter garantido a segurança de seus empregados, mas também ajudou a comprar armas e munição para os paramilitares assassinos matarem outras pessoas.

“Essa empresa tem sangue em suas mãos. É cúmplice de massacres. Se você dá dinheiro a alguém sabendo que depois ele vai matar pessoas, ou aterrorizar, ou torturar, você também é culpado”, afirmou Collingsworth. E como saberiam na empresa ser esse o caso? – perguntou Kroft. “Se não sabiam, eram os únicos em toda a Colômbia a ignorar a ação dos paramilitares”, respondeu o advogado.

O “60 minutes” ouviu ainda o ex-chefe paramilitar Salvatore Mancuso, que cumpre pena por narcotráfico em prisão de segurança máxima nas cercanias de Medellín. Ele negou que a Chiquita desconhecia a ação do grupo que financiava: “Ela pagava porque éramos como o estado na área. Dávamos a proteção que permitia a eles continuar operando. Eles faziam investimentos, tinham lucros. E pagavam voluntariamente” (veja abaixo, em dois videos do YouTube, estas e outras declarações contundentes de Mancuso, comprometendo a Chiquita, Uribe e a base parlamentar do governo colombiano ).

Published in: on maio 21, 2008 at 5:15 pm  Deixe um comentário  

Bush, Obama e a ameaça hitlerista

Ao atacar “os democratas”, com a intenção clara de atingir Barack Obama (por se dispor a conversar com o Hamas ou o Irã), o presidente Bush reviveu o fantasma do primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (saiba mais sobre ele AQUI, no 10 Downing St), que assinou o pacto de Munique com Hitler, e ainda o de um senador isolacionista dos EUA, William Borah (veja perfil dele AQUI, na análise da AP), a quem se atribui a fantasia de que, se ele tivesse podido falar antes com Hitler, não teria havido guerra.

Bush tem sido sempre um desastre quando se mete a fazer analogias históricas. Mas desta vez pode ter ido longe demais, como sugeriu num artigo o jornalista Robert Parry (leia-o AQUI). Chamberlain é exorcizado como “apaziguador” (palavra cuja conotação negativa é bem mais vigorosa no original inglês, “appeaser”). Pareceu insólito, em especial, Bush ter insistido na figura do senador Borah, há muito esquecido.

O escorregão primário do presidente foi esquecer, talvez de propósito, que Borah era republicano como ele – e não democrata como Obama. Isolacionista da velha escola, acompanhou a linha do senador Henry Cabot Lodge (saiba mais AQUI sobre ele), que liderou os republicanos, depois da I Guerra Mundial, contra o presidente democrata Woodrow Wilson. Apesar de ter assinado na conferência de Versailles a adesão dos EUA à Liga das Nações, ali criada, Wilson viu a ratificação do Senado acabar inviabilizada pela campanha de Lodge.

Os bons negócios numa guerra

No desdobramento, com a Liga das Nações enfraquecida pela ausência dos EUA, abria-se caminho à ascensão de Hitler na Alemanha. Nos EUA, o Partido Republicano, minado pela ala isolacionista, subestimava a crise na Europa, apesar da preocupação crescente do presidente democrata Franklin Roosevelt com o fascismo de Mussolini, no poder na Itália, e o avanço, na Alemanha, do nacional-socialismo.

A ironia de agora é que Bush, ao se voltar contra o republicano Borah e apontá-lo à execração pública, esqueceu o papel de seu próprio bisavô Samuel Bush (1863-1948) e do avô Prescott Bush (1895-1972). O primeiro, associado à família do magnata de ferrovias E.H. Harriman, foi conselheiro do presidente Herbert Hoover, associando-se ainda aos Rockefeller e sua Standard Oil/Esso (conheça AQUI o livro de Kevin Phillips que retratou a dinastia Bush).

Já na II Guerra, os Bush (que na anterior tinham a indústria de armas Buckeye Steel Castings, que fabricava munição, canos de canhão e outras armas) dobrariam a fortuna graças ao casamento de Prescott com a filha do banqueiro de investimentos (e também bisavô do atual presidente) George Herbert Walker (1875-1953), Dorothy (Dottie) Walker.

O banqueiro que ajudou Hitler

Ao falar no Parlamento israelense, o presidente Bush lembrou com desprezo o senador republicano Borah – culpado apenas de ter sido isolacionista. Poderia, no entanto, ter lembrado o próprio avô, Prescott Bush. A parte mais controvertida da biografia deste ocorreu durante a II Guerra, quando era diretor e acionista do banco United Banking Corporation (UBC).

Ele vendia à máquina de guerra da Alemanha hitlerista armas e material crítico para a indústria, financiando as operações, depois de ter comprado do industrial nazista Fritz Thyssen, chamado de “anjo de Hitler”, a Consolidated Silesian Steel Corporation – acusada de usar trabalho escravo de prisioneiros de Auschwitz. Na certa o Parlamento israelense gostaria de conhecer essa faceta da família Bush.

Quando detalhes sobre o caso sairam na imprensa americana em 1942 causaram escândalo, forçando o governo a agir: investigou o UBC de Prescott Bush e o enquadrou na Lei de Transações com o Inimigo, assinada pelo presidente Franklin Roosevelt na semana seguinte ao ataque de Pearl Harbor (dezembro de 1941). O banco sofreu intervenção: ainda pôde operar mas teve de renunciar aos lucros que obtidos ajudando a máquina de guerra nazista.

Depois, o ingresso na política

Por que Prescott Bush, pai do ex-presidente George H. W. Bush e avô do atual, George W, não sofreu punição dura, à altura da acusação? O governo Roosevelt evitou aprofundar-se na questão, pois queria os homens de negócios unidos no esforço de guerra. Temia o risco de também sairem chamuscados na investigação gigantes como a Standard Oil, os Rockefeller, o Chase Manhattan e a General Motors.

Toda essa história está contada em O Império Contra-Ataca – As guerras de George W. Bush, antes e depois do 11 de setembro, meu livro lançado em 2004 pela editora Paz e Terra. Já em 1943, talvez convencido de que a memória do país é fraca, Prescott Bush teve o cuidado de se distanciar do UBC. Mas a ajuda do banco da família Bush a Hitler tinha ocorrido exatamente na época em que a máquina de guerra alemã horrorizava a Europa – do período da invasão da Polônia e da França, do bombardeio de Londres e da criação dos campos de extermínio.

Prescott Bush passaria algum tempo à frente da arrecadação de dinheiro para o Fundo Nacional de Guerra (NWF). Seu filho George H. W. Bush tornou-se piloto de guerra no Pacífico até sofrer um grave acidente. Terminado o conflito, Prescott iniciou o longo envolvimento da dinastia Bush na política: cumpriu mandatos no Senado dos EUA, pelo estado de Connecticut, entre 1952 e 1963, quando se aposentou. Morreu nove anos depois. O filho dele tornou-se presidente em 1988 e o neto em 2000 e 2004.

Published in: on maio 21, 2008 at 3:16 pm  Deixe um comentário  
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 38 outros seguidores