A mídia e os civis mortos na guerra de Bush

As redes públicas americanas de rádio (NPR) e TV (PBS), cujo jornalismo tinha credibilidade pelo padrão elevado, foram golpeadas no governo Bush. Novo exemplo disso é o noticiário sobre o Iraque na NPR. Programas em rede nacional sempre estiveram entre os destaques dessa rede. Mas são exatamente eles o alvo agora de um estudo da FAIR (iniciais em inglês de “Honestidade e Precisão na Reportagem”).

Essa organização privada faz estudos assim desde 1986, monitorando a mídia a partir de um enfoque progressista, de esquerda. Já publicou vários livros e edita uma revista mensal, Extra!, que reflete o trabalho desenvolvido. Por isso costuma ser citada pelos principais jornais do país, inclusive o Washington Post, New York Times, Wall Street Journal e o Los Angeles Times.

A propósito do 5° aniversário da guerra, a FAIR manifestou seu desapontamento com a NPR. (leia o artigo AQUI.) No dia 15 de março, por exemplo, o âncora da emissora ocupou-se dos mortos no Iraque. É geralmente aceito que já são 4 mil os soldados americanos mortos. Agora a NPR citou as estimativas sobre os civis iraquianos, dizendo que o total de mortos “varia entre 47 mil e 151 mil, dependendo da fonte”.

Como manipular os dados

E que fontes eram aquelas? Uma pode ter sido o NEJM (New England Journal of Medicine), que a 31 de janeiro publicou avaliação conduzida pelo governo do Iraque para a OMS – Organização Mundial da Saúde. Esta calculava que 151 mil civis iraquianos tinham sido mortos pela violência entre março de 2003, quando houve a invasão, e junho de 2006. Aparentemente veio daí o número 151 mil.

Mas o texto do NEJM começava assim: “Estimativas do balanço de mortos no Iraque desde a invasão liderada pelos EUA até junho de 2006 têm variado de 47.688 (do website Iraq Body Count – IBC) a 601.027 (de uma avaliação nacional)”. Aparentemente, o dado 47 mil da NPR veio daí, do IBC, que tem sido fonte freqüente dos veículos ocidentais.

Só que esse último dado do IBC é claramente descrito como sendo de junho de 2006 – antes do maior pico da violência, que foi no final de 2006 e início de 2007. Atualmente o IBC já tabulou pelo menos 82.249 mortes de civis. A NPR, no entanto, optou pela estimativa mais baixa do relatório da NEJM, sem sequer explicar por que o fez, e ignorando o cálculo mais alto – 601 mil, citado no mesmo documento.

Um milhão e 200 mil mortos

Já o número 601 mil foi uma estimativa feita pela escola de saúde pública da Universidade Johns Hopkins, publicada em outubro de 2006 pela revista britânica The Lancet, a principal publicação médica independente do mundo (visite seu WEBSITE). Trata-se de estudo muito conhecido, de acadêmicos de alto nível. Outro programa da NPR até já tinha entrevistado um daqueles autores, mas entre janeiro e março o estudo desapareceu misteriosamente da memória coletiva da rede radiofônica.

A FAIR ressalta ainda que tanto os 601 mil do estudo da Johns Hopkins como os 151 mil da OMS referiam-se apenas até junho de 2006, o que deixa de lado o pior período da violência no Iraque. A mais recente avaliação do número de civis iraquianos mortos foi a conduzida em agosto de 2007 por uma firma especializada britânica, Opinion Research Business (ORB). Ela elevou o total a 1 milhão e 200 mil (saiba mais sobre o ORB e seu trabalho na WIKIPEDIA).

Se a NPR pretendesse realmente informar os ouvintes com estimativas dignas de crédito sobre as mortes resultantes da invasão e da violência posterior causada pela guerra, argumenta a FAIR, teria de incluir esses dados mais recentes. Em vez disso, deixou nos ouvintes a impressão de que o maior cálculo plausível é aquele que, na verdade, só representa um oitavo da estimativa real.

Rádio e TV em declínio

A partir da análise da FAIR, fica claro, mais uma vez, que a manipulação dos dados sobre as vítimas do conflito continua a ser feita, apesar da oposição vigorosa da opinião pública do país à guerra de Bush. A imagem da NPR, mesmo com os estragos causados a ela pelo governo atual, ainda é boa, mas apenas devido à seriedade do trabalho passado de seus profissionais.

Nesse caso, destaca a FAIR, ou a questão dos mortos da guerra foi tratada com extremo desleixo ou, pior ainda, com deliberada desonestidade. Os números frios sugerem a suspeita de que houve a intenção de desinformar – e enganar os americanos. As emissoras, que tinham uma tradição de independência, foram golpeadas no governo Bush por denúncias de ingerência política.

Na rede pública de TV, cuja imagem também foi prejudicada nos últimos oito anos, ocorreu coisa parecida. A FAIR citou a referência a “pelo menos 90 mil civis mortos” no programa “NewsHour”, de Jim Lehrer, que simplesmente deixou de mencionar as estimativas 14 vezes maiores do que isso. Nem o principal noticiário nacional da rede NBC (“Nightly News”) ousou tanta manipulação, já que falou “entre 85 mil e 600 mil”.

 

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Published in: on março 28, 2008 at 3:50 pm  Comments (2)  

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2 ComentáriosDeixe um comentário

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  2. Parabéns e obrigado pelas informações. Vou fazer um resumo das mesmas e veicular também.
    Pela informação sem distorção!


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